Escorregadio como uma enguia

António José Seguro já vem dizendo que Portugal não pode voltar à despesa de há dez, vinte ou trinta anos. Vamos passar por cima do detalhe de muito do mal ter sido causado pela despesa de há quatro, seis ou oito anos. A questão é que Seguro, agora, hoje, já quer um “acordo alargado” sobre a despesa. Amanhã, logo se verá.

 

Isto, vindo de quem vem, só pode ser para rir. Tendo Seguro, na prática, sabotado a hipótese de acordo alargado sobre a reforma do Estado que Cavaco Silva propôs, e tendo Seguro radicalizado cada vez mais o seu discurso, vir agora fazer cara de santo e propôr “acordos alargados definindo limites para a despesa primária” é de uma hipocrisia digna do seu partido. Que se seguirá, Seguro propor que o défice e a dívida tenham limites impostos na Constituição?

Sobre Sócrates no Expresso [4]

“Nem sabia que existiam vidas assim, vidas tão boas. Nunca tinha tido uma vida dessas.”


Este notável cavalheiro, depois de ter deixado um país na penúria e ter o seu nome associado a múltiplos casos cinzentos, teria feito bem melhor em seguir a sua vidinha de forma razoavelmente discreta. Mas não! Sócrates, vaidoso patológico e como qualquer provinciano que se apanha com dinheiro e/ou poder, exibe-se numa ostentação decadente. Sócrates acha a sua vida em Paris “tão boa” e “não sabia que existiam vidas assim”, ele que fazia safaris no Quénia enquanto o país ardia e férias em Menorca, caía nas neves da Suíça, descansava uns dias no Pine Cliffs Resort e, last but not least, comprava os seus fatinhos na Bijan.

Sobre Sócrates no Expresso [3]

“Ele (Lula da Silva) foi a Sciences Po receber o título honoris causa quando comecei a estudar lá, por coincidência. Chegou a Lisboa e quis falar comigo e ninguém lhe dava o meu número de telefone, já eu estava em Paris. Ele fez uma fita, quero falar com o Sócrates! Não tinha o telefone de Paris. Quando chegámos à fala, disse-lhe que íamos estar juntos, depois jantámos na Embaixada do Brasil, antes da sessão. Um jantar divertidíssimo, até às duas da manhã. No dia seguinte, estavam lá os catedráticos todos, no doutoramento, e o Lula disse-lhes que eles tinham ali aquele gajo como étudiant – eu fui e ainda sou estudante de Sciences Po – e pediu-me para lhes mostrar o meu cartão de aluno. Mostra, Sócrates! Mostra!”


Mostra o cartão, Sócrates! Mostra!


Tudo isto é pobrezinho, foleiro, labrego, dedinho espetado a segurar a bica. Nada mais é do que o deslumbramento de um bando de parolos quando vê os neons da cidade. É o pato-bravo que, de fato de treino, atravessa a rua para beber a bica – mas leva no dedo, à laia de aliança, o porta-chaves do Mercedes. É a dona Vitalina que exibe às amigas da aldeia o filho, caloiro da faculdade, vestido com a batina e exulta que o menino “está a estudar para doutor”.

Sobre Sócrates no Expresso [2]

Aos bochechos, como se fossem teasers de um qualquer blockbuster de Hollywood, vão saindo fragmentos da entrevista que Sócrates deu a Clara Ferreira Alves (quem mais?). Sócrates diz, com a inocência das crianças, que nacionalizou o BPN porque “não sabia o que aquilo era”. Pelos vistos, não sabia ele; não sabia Teixeira dos Santos, ministro do sector; não sabia o inepto Constâncio, governador (pago imperialmente) que, com um encolher de ombros, afirmava não fazer a mais pequena ideia do que se passava no sector que devia supervisionar; nem o sabiam as centenas de funcionários do Banco de Portugal, pagos regiamente, mas cuja utilidade ninguém me conseguiu nunca explicar.

Portanto, Sócrates e este bando estão ilibados. Se “não sabiam o que aquilo era”, porquê esperar que fossem à descoberta?

Avançar um passo para recuar outros quinze

Quando a greve do Metro prevista para esta semana ficou sem efeito, eu pensei que os sindicatos, finalmente, estavam a mostrar flexibilidade. [Na verdade, não pensei tal coisa – mas fica sempre bem, neste tipo de texto, aparentar alguma crença ingénua na espécie humana.] Entretanto, os vários sindicatos dos transportes conluiaram-se para organizar duas semanas de greves.

 

E que tal se fossem à merda?