Soares, o vendedor de passados

O velho Soares começou o seu monólogo semanal no DN com um elogio a Ramalho Eanes. Pessoalmente, acho que o simples facto de Soares elogiar Eanes é um atentado à Honra deste.

 

Em dado passo, o geronte Soares afirma:

 

“Tivemos divergências depois da reeleição do presidente [Eanes] em quem aliás votei.”

 

Almas caridosas podem dizer que isto é o cansaço de uma mente jurássica, mas eu digo que não. A senilidade, pelo seu carácter imprevisível, tende a ser aleatória. Este episódio de reinvenção do passado não foi casual mas sim objectivo.

 

O triássico Soares afirma que votou na reeleição de Eanes. Terá sido para melhor votar em Eanes que Soares, então secretário-geral do PS, recusou apoiar a sua recandidatura? Terá sido por votar em Eanes que Soares iniciou o processo de ruptura com Francisco Salgado Zenha que acabou na sua saída do partido?

Por qué no te callan?

Este velho pulha, que dedicou anos do seu segundo mandato à mais abjecta guerrilha política contra o governo de então para abrir o caminho do Poder ao seu PS, tem a absoluta falta de vergonha de fazer acusações a Cavaco Silva. E Ana Sá Lopes, que desta vez consegue-se refrear de dizer “o senhor doutor”, parece ter como única função no jornal I – transmitir as flatulências verbais do verme Soares. Ana Sá Lopes, negando o título do jornalista, é toda ouvidos – mas desprovida de boca, olhos ou cérebro.

Blockbusters

José Rodrigues dos Santos disse em entrevista recente que:

 

“Ler um romance meu é como estar a ver uma grande produção de Hollywood.”

 

O rapaz não deixa de ter bastante razão. Tanto o livro de Rodrigues dos Santos como o blockbuster hollywoodesco fazem-se anunciar por maciças campanhas publicitárias; depois revelam-se longos, cansativos, barulhentos, histéricos, pouco credíveis; no fim, deixam ambos a sensação de tempo e dinheiro desperdiçados.

Os três estarolas

Na passada quinta-feira, uma homenagem a Manuel Tito de Morais juntou na mesma sala Mário Soares, Manuel Alegre e Almeida Santos – e o habitual rebanho de jornalistas que segue tais pastores. Manuel Alegre afirmou:

 

“(…) sabemos que nos últimos tempos têm havido casos, alguns deles ainda impunes, que são um verdadeiro escândalo [de] gente que esteve no Governo e se governou.”

 

“Estou a pensar nas mesmas pessoas em que vocês estão a pensar”, respondeu o frontal e corajoso Alegre quando questionado pelos jornalistas sobre a quem se referia. O que não deixa de ter a sua piada, pois quando eu penso em gente que usou o Poder (ou a sua proximidade) para “se governar”, há três nomes que imediatamente me vêm à memória: Mário Soares, Almeida Santos – e, em menor escala, Manuel Alegre.

Cara e coroa

Na sua edição de Novembro, a Ler, dirigida pelo ex-Secretário de Estado da Cultura deste perigoso governo neo-liberal, publicou uma entrevista de oito páginas a Maria Teresa Horta – e com honras de capa.

 

Deixem-me refrasear: neste país governado pela Direita Radical, uma revista privada e independente, dirigida por um ex-governante, deu oito páginas de exposição (e fotografia de capa) a uma escritora politicamente nos antípodas do Poder vigente, e que exibiu o despeito por este de forma bem pública e publicitada.

 

Agora, façamos um exercício…

 

Fosse este país sob um regime tão do agrado de Maria Teresa Horta, não existiria uma revista privada, muito menos independente, para promover o trabalho de qualquer um; um opositor ao Poder não teria a liberdade de fazer o número que Maria Teresa Horta fez; e as oito páginas que Maria Teresa Horta teria sobre si seriam as da transcrição do seu (sumaríssimo) julgamento, após o qual iria em viagem para um campo de reeducação.

A Matemática privada de Peres Metelo

Recordo-me de ler, há uns anos, uma entrevista ao (então já) jurássico Soares em que este confidenciava gostar dos comentários de Economia de Peres Metelo na TVI, com os quais até já teria aprendido muita coisa sobre o tema. Na altura, não me surpreendeu: António Peres Metelo era uma espécie de porta-voz-oficioso da teoria socrática. Na prática, Peres Metelo não deixava o seu pensamento económico embaraçar-se com pormenores como – Economia. Pelo que percebi hoje, no pensamento económico de Peres Metelo também não há espaço – para Matemática Básica. E Economia sem Economia e Matemática, para o velho Soares, é aquilo que a Economia deve ser.

 

A que propósito fui eu buscar António Peres Metelo, personagem que evito como uma doença?

 

Acontece que estava eu a fazer zapping pelos canais, deparei-me com ele a comentar na TVI24. Não ouvi mais do que um par de minutos, mas bastou esse tempo para assistir a um espantoso momento de televisão: António Peres Metelo, licenciado em Economia e comentador de assuntos económicos na televisão e imprensa escrita e falada, afirmou em directo e a cores que “a entrada de dois novos funcionários por cada três que se reformam é um erro”. Claro que é um erro, como qualquer coisa que sai deste Governo direitolas. A razão meteliana? Porque, como o número de jovens que entra não é suficiente para compensar o número de reformados que sai, isto vai causar o envelhecimento da Função Pública!

 

Como disse? Mas o gajo é totó?

 

Eu já tentei, mas não consigo. O meu cérebro não tem a plasticidade do do Grande Metelo para, qual Neo em Matrix, vergar a Matemática às minhas necessidades.

 

Ora só para que não se diga que eu deixo o pobre senhor entregue à sua confusão, aqui vai uma demonstração empírica com um exemplo extremo:

 

100.000 funcionários com 50 anos = média de 50 anos.

 

Saem 3, ficam 99.997 funcionários com 50 anos.

 

Entram 2 funcionários com 25 anos.

 

99.997 func. com 50 anos + 2 func. com 25 anos = média de 49,9995 anos.

 

Eu estava cá na minha que bastava pensar assim: saem velhos, entram novos, o total rejuvesnece. Mas não! Não para o grande economista Peres Metelo, em cujo mundo 1 pode ser igual a 2 e, portanto, 0 pode ser infinito.