Eusébio e coisas menores

Morreu Eusébio.

 

Ao contrário do que alguns insistem em sublinhar, não desapareceu apenas um ex-jogador de futebol, mas um símbolo do País. Alguém que levou o nome de Portugal aos quatro cantos do Mundo fazendo muito bem aquilo que sabia fazer. Sem artifícios, sem rodeios, com a simplicidade que enchia a vida de um atleta profissional na década de 60. Eusébio teve o mérito de nunca se envolver em disputas políticas ou sociais, apesar de aliciado. Nunca se pôs em bicos de pés, reclamando a atenção e o carinho que a sociedade portuguesa lhe dedicava de forma espontânea. A sua simplicidade, que admiro e respeito, é uma das características que o tornaram numa figura unânime, independente de preferências clubísticas, e a razão pela qual, de uma forma mais ou menos intensa, todos choramos a sua morte.

 

O mesmo não sucederá aquando da morte do nojento Soares. Por cuspir coisas destas, por exemplo.

O lixo e a cidade

Numa empresa em que trabalhei, circulava uma história sobre um nosso colega (e, com um bizarro orgulho, nunca desmentida pelo próprio) segundo a qual após uma noite de farra colectiva, ele terá telefonado perto da hora de almoço a justificar-se por ter faltado de manhã:

 

– Desculpem lá, mas deixei-me dormir e só acordei agora.

 

Ao que lhe responderam:

 

– Está bem, nós já estávamos a ficar preocupados. Mas então e ontem, porque é que não vieste?

 

Veio-me esta história por causa daquilo que leio no Público:

 

Greve dos trabalhadores de recolha faz lixo acumular-se nas ruas de Lisboa.


(Imagem: Público)

 

A minha resposta é: está bem, mas então e nos outros dias todos, qual é a justificação?

 

Quem leia esta notícia do Público, ainda pode ficar com a ideia de que Lisboa, em condições normais, é uma autêntica cidade-sol, rebrilhante de higiene. Claro que basta andar um pouco pelas ruas para se perceber como estamos muito longe dessa ficção. A relação desta gestão(?) camarária com o lixo sempre tem sido bastante disfuncional – a começar pela peregrina ideia de colocar um camião a fazer a recolha do lixo no Chiado a meio da tarde, quando as ruas estão cheias de visitantes e o comércio está no pico.

O programa de Governo do TC

O juiz presidente do Tribunal Constitucional (TC), Joaquim Sousa Ribeiro, afirmou aos jornalistas depois da leitura do acórdão, que o corte de 10% nas pensões só poderia ser justificado no âmbito de uma reforma estrutural do sistema pensionista, deixando entender que a redução no valor destas prestações teria de envolver o regime da Caixa Geral de Aposentações mas também o da Segurança Social. Porém, acrescentou, a forma “avulsa” como foi apresentada visava apenas a “consolidação orçamental pelo lado da despesa”.

 

Quando leio este excerto da notícia do Jornal de Negócios, sou tomado por duas convicções. Primeiro: todo este detalhe exposto pelo presidente do TC parece-me um programa de governo, não a mera avaliação de uma lei. Segundo: quando é dito em tom de crítica que a proposta “visava apenas a consolidação orçamental pelo lado da despesa”, deixa a sensação de que, para o Tribunal Constitucional, o Estado não terá autorização para ser reformado senão com (também) ainda mais receita.

As Ordens

Se Engenheiros, Arquitectos, Advogados e outras classes profissionais têm que prestar provas a uma Ordem de que são capazes de o ser, porque raio os professores (propositadamente com letra minúscula) não o hão-de fazer também? A verdade é que, bem ou mal, as Ordens de Engenheiros, Arquitectos e etc. pretendem zelar pela qualidade dos que usam esses títulos. Já Mário Nogueira e correligionários não parecem ter o mínimo interesse na qualidade dos seus associados – antes pelo contrário, como se pôde ver, quanto piores melhor.

O lamentável (in)Seguro

O dinâmico António José Seguro tenta, como qualquer outro invertebrado o tentaria fazer no seu lugar, cavalgar esta onda de protestos dos professores. Ontem, afirmou:

 

Ninguém compreende que ao fim de três ou quatro anos de se estar a lecionar tenha de se fazer uma prova e que duas horas de exame determinem se uma pessoa continua ou não a lecionar numa escola.

 

Concordo com a primeira parte do seu argumento. Realmente, não compreendo como se demoram três ou quatro anos para prestar provas de aptidão para o ensino – isso devia ser feito ANTES de se começar a dar aulas. Quanto ao exame, Seguro está a ver a coisa ao contrário: as duas horas de exame, na minha opinião, não servem para determinar se uma pessoa continua ou não a leccionar numa escola – servem para determinar se essa pessoa ALGUMA VEZ devia ter leccionado.

 

O líder do PS defende que não faz sentido um exame para professores que já estão a lecionar (…)

 

Certo. Para Seguro, se alguém está a realizar um determinado trabalho (bem ou mal, parece não lhe interessar), não tem que prestar provas de capacidade para o fazer. Pelo mesmo argumento, poderia dizer que Artur Baptista da Silva não tem que provar ser economista – pois já fez de conta que o é.

 

Numa coisa concordo com Seguro: esta prova é injusta. Para mim, a prova, tal como avançou, representou um recuo lamentável de Nuno Crato. Seguro diz “compreender que para se aceder a uma profissão se possa exigir um conjunto de condições para saber se a pessoa o pode fazer para além das habilitações que obteve” (e, portanto, parece estar de acordo com a realização de uma prova deste género), mas não compreende porque se exige aos docentes com cinco ou menos anos de profissão. “Porque é que se aplica aos de cinco anos e não aos de seis ou sete ou aos de quatro»?”, perguntou o líder socialista, que classifica esta prova de injusta. Eu também a acho injusta, mas não a limitaria aos seis ou sete anos. Todos os professores a deviam realizar – a começar por aqueles que são avaliados com um Bom sem darem uma aula há décadas.

 

Mas claro, com Seguro e o PS sempre dispostos à demagogia e ao desleixo, se a prova é injusta por apenas alguns a fazerem – ninguém a faz.

Feios, porcos e maus

 

Depois de tudo o que tem acontecido, a última coisa que os portugueses merecem é conviver com a invasão mediática, na mesma semana, de sombrias personagens como Otelo, Vasco Lourenço e Mário Soares debitando os seus disparates.

 

Levados, quiçá, pelo dissipar da virilidade própria de outras idades, falam de violência, murros e tiros como quem navega na sua própria realidade. As suas afirmações são, no entanto, para levar mais a sério. Seria, concordo com o João, benevolente justificar estes apelos primitivos com o irremediável declínio mental que se apodera destas personalidades.

 

Estão, porém, desfasados da realidade. Não vivem já no país tumultuoso que um dia conheceram e tudo lhes permitiu. São olhados com complacência, da mesma forma que se encaram dois velhos aldeões disputando, à bengalada, um qualquer metro de terra.

A falta de ambição do Tribunal Constitucional

Agora que o Tribunal Constitucional “virou o bico ao prego”, lá se vai a legitimidade pela janela fora.

 

“CGTP diz que cabe a trabalhadores lutar pela redução do horário de trabalho”

 

“PCP vai propor no parlamento reposição das 35 horas semanais na Função Pública”


Ao validar o regime das 40 horas de trabalho para a Função Pública, o TC não foi ambicioso. Ao invés, deveria ter proposto o seu alargamento para 44, como em Cuba, ou o início do dia de trabalho com reuniões políticas de uma hora e o seu encerramento com sessões de auto-crítica, como sucede na Coreia do Norte, esses bastiões da democracia de esquerda.