Há males que vêm por bem

Há um ano, António Costa dizia que ser presidente da Câmara de Lisboa era incompatível com ser líder do PS. E agora, continua a ser ou, como disse em Julho, “as circunstância mudaram”? (Muito gosta esta gente do PS de justificar as suas piruetas com a “mudança de circunstâncias”).

 

Eu até diria que, se ele sair da Câmara, o país perde de certeza – mas Lisboa talvez ganhe.

Santos não fazem milagres

Após uma (recorrente) vaga de fundo na imprensa “especializada”, Fernando Santos é o novo seleccionador nacional – lugar que pode estar impedido de ocupar em todos os jogos da fase de qualificação.

 

Eu, que não sou seguidor do fenómeno do “futebol português”, confesso-me pouco impressionado com a escolha da Federação. Nada tenho contra a pessoa, com quem até simpatizo por o achar educado, razoavelmente sério e esforçado. Contudo, não me esqueço de que Fernando Santos conseguiu a proeza de perder um campeonato no Porto para o Sporting(!) – e fê-lo tendo Jardel em forma e a marcar golos. Também não me esqueço de que, como treinador do Benfica, Fernando Santos ficou em terceiro, de novo depois do Sporting(!) treinado – curiosamente – por Paulo Bento.

 

Estes dois factos, só por si, foram suficientes para achar Fernando Santos um treinador razoavelmente competente – mas apenas isso.

 

Quem sabe? Talvez tenha evoluído durante estes anos. Talvez seja um melhor seleccionador do que foi treinador de clube – trabalhos com especificidades próprias.

 

Talvez as minhas reticências em relação a Fernando Santos, válidas em 2004, já não façam sentido em 2014. O problema é que o grupo de jogadores que ele tem à sua disposição, claramente mediano e claramente inferior àqueles de que Humberto Coelho dispunha em 2000 ou Scolari em 2004, dificilmente lhe permitirá grandes brilhantismos.

Foi bonita a festa, pá!

Ex-ministra Maria de Lurdes Rodrigues foi condenada por prevaricação.

 

Em causa estava a contratação de João Pedroso, por ajuste direto, para exercer tarefas de consultoria jurídica, a partir de 30 de janeiro de 2007, mediante o pagamento de 220 mil euros (sem IVA), a serem pagos em duas prestações.

 

O problema não era a contratação directa ou o dinheiro envolvido. O busílis da questão foi mesmo a natureza do trabalho: tirar fotocópias da legislação. Os 220 mil euros fariam destas as fotocópias mais caras da História.

Azeite rançoso

Por mero acidente, descobri há poucos minutos que a banda Os Azeitonas, que durante meses nos infernizou os ouvidos com a sua magnum opus “Anda Comigo Ver Os Aviões”, nasceu para os discos em 2005 pela mão de Rui Veloso. Isto explica muita coisa.

 

Que Rui Veloso venha, depois, queixar-se do “triste estado da música portuguesa”, parece-me um exercício de alguma hipocrisia. Isto é um pouco como os talibans de Bamiyan queixarem-se da inexistência de uma política de preservação do património.

Quem se mete com os nossos, leva!

A RTP (o tal canal de televisão que está controlado pelo Governo) foi ouvir o velho Soares, esse grande economista, a propósito do BES. Nunca vi a RTP pedir a opinião do palhaço Batatinha sobre a política integracionista de Putin. 

 

Primeiro, acho queriducha a constante simpatia que as gentes do PS, um partido supostamente de esquerda, têm para com os bancos e o grande capital.

 

Segundo, parece óbvio que os banqueiros, certamente mal habituados pelo constante desvelo maternal com que o PS olha para as suas diabruras, encaram o dinheiro dos contribuintes como uma solução para os buracos cavados pelas suas vigarices.

 

Terceiro, ao contrário do que o jurássico Soares afirma, não foi o Governo a atirar o BES para o charco. O BES foi parar ao charco (ou melhor, às areias movediças, pois quanto mais se mexe mais se enterra) graças às “liberdades criativas” de uns cavalheiros que o dirigiam.

 

Quarto, a ameaça de “Quando Ricardo Salgado falar, e vai falar, as coisas vão ficar de outra maneira”. Na essência, o decano Soares está a dizer que quem se mete com Ricardo Salgado, leva – tal como Jorge Coelho dizia que “quem se mete com o PS, leva”. Aliás, acho que o PS poderia generalizar: quem se mete com os nossos, leva.

 

Acontece que eu quero que Ricardo Salgado fale. Eu quero que Salgado fale tudo – mas é mesmo tudo, não um “tudo” seleccionado para conveniência de alguns. Tenho a certeza de que haveria muitos nomes conhecidos nessa lista, a começar por alguns que contribuíram para o regresso da família a Portugal.

 

Quando foi o BPN, o governo de então achou por bem queimar dinheiro do contribuinte de forma a deixar toda a gente satisfeita: banqueiros e futebolistas que tomam pequenos-almoços. A coisa não correu bem. Agora, o Governo adoptou estratégia diversa: não acorrer com pazadas de dinheiro do contribuinte para tapar os buracos abertos por um burlão bem relacionado. Até pode acontecer que a coisa corra igualmente mal – mas é uma diferença de postura interessante.

Fantasia

Quando na sexta-feira passada li:

 

Foi dado como provado que Armando Vara recebeu 25 mil euros de Manuel Godinho

 

recordei-me logo de algo que Eduardo Pitta escreveu, exultante, em Dezembro de 2009:

 

Caiu por terra a fantasiosa acusação de [Armando Vara] ter recebido 10 mil euros, ou qualquer outra soma, para intermediar negócios de Manuel Godinho.

 

Pitta foi (imagino que continue a sê-lo, mas deixei de consumir o seu blogue) um dos mais fervorosos defensores do regime socrático e um constante relativizador do fenómeno Vara, tendo-lhe dedicado vasta obra escrita no seu blogue. Isto faz-me sentir um certo prazer perverso em escrever:

 

Caiu por terra a fantasiosa ideia de Eduardo Pitta de que caíra por terra a fantasiosa acusação de Armando Vara ter recebido qualquer soma para intermediar negócios de Manuel Godinho.

Isto vai correr mal

Há já algum tempo que é visível este buraco na Rua Sá da Bandeira:

Desde o início que é evidente a profundidade e a largura do buraco. Com as chuvas recentes, a depressão no passeio vem aumentando de forma alarmante, já caiu mais uma pedra e outras, como se vê, preparam-se para seguir o mesmo caminho.

 

Um destes dias, o passeio vai abater por completo, alguém vai ficar lá dentro, as televisões virão fazer reportagens e então, atrasado e atabalhoado, finalmente veremos um piquete camarário. Até lá, apesar de varredores e fiscais da EMEL passarem por ali diariamente, a Câmara (supostamente) liderada por Costa nem uma fita colocou.