Sócrates no devido lugar [2]

Este tipo de crime, pela sua própria essência, torna-se muito difícil de provar. Contudo, não me sai da cabeça que para um juiz deter um ex-primeiro-ministro, e ainda por cima um com o perfil público de José Sócrates, tem de estar acrescidamente convicto da linha de investigação. Para tal, imagino que possua informações que considera seguras: por exemplo, obtidas via alguém que esteja dentro do circuito da banca. Pessoa que conheço aventava que teria sido Vara a “soprar” isto ao ouvido de alguém interessado. Não acredito nisso: os mafiosos, honra lhes seja feita, não costumam delatar amigos com quem partilham uma vida de “negócios”. Por outro lado, recordei-me da ameaça, nos idos de Setembro, proferida pelo dinossáurico Soares: que quando Ricardo Salgado falasse, e iria falar, as coisas iriam ficar de outra maneira. Será que…?

Sócrates no lugar devido

Ontem à noite não vi televisão nem liguei o computador. Hoje de manhã, não vi televisão nem liguei o computador. Já passava do meio-dia quando, num quiosque, li na primeira página do DN “José Sócrates detido”. Continuei a andar alguns metros até interiorizar aquelas três palavras e recuei para me convencer de não ter imaginado aquilo que lera. Pensei como era curioso eu ter estado, durante tantas horas, naquela espécie de bolha, completamente alheado do que sucedera.

o escroque

Quem me conhece, sabe que não sou um optimista. Fui vencido tantas vezes que o meu espírito já não contempla a hipótese. Imagino que seja possível que amanhã Sócrates seja libertado e regresse à sua vidinha, com o seu sorrisinho hipócrita e acrescido da auréola de mártir. Mas hoje, pelo menos hoje, vivi num país em que um escroque, por mais bem envernizado, tem de olhar por cima do ombro. E isso, caramba!, foi bom.

Isto pode querer dizer algo…

Hoje deparei-me com um espectáculo bizarro: quatro fiscais do Metropolitano, agrupados à porta de uma carruagem, impediram durante um minuto a saída do comboio em questão porque debatiam se seguir naquela linha ou ir para a linha Verde – e tal trapalhada apenas porque um deles não gostava dessa linha.

 

Isto fez-me recordar que não tive, nas últimas duas semanas, um único dia sem encontrar pelo menos uma linha de Metro com “perturbações na circulação – pedimos desculpa pelo incómodo causado”. Aliás, minto. Houve um dia em que não fiquei nunca mais do que cinco minutos à espera nas estações; em que os comboios não estavam à pinha; em que as viagens foram rápidas e sem interrupções pelo meio. Esse dia, curiosamente, foi o da greve na semana passada.

Mais uma, é só mais uma

O Tribunal Arbitral decretou serviços mínimos para a greve de amanhã do Metro de Lisboa. Isto significa que “deve ser assegurada a circulação de um quarto das composições que habitualmente transportam passageiros”. A palavra a reter aqui é habitualmente. O problema é ser tão frequente o Metro estar parado ou com “perturbações” que um quarto das composições habitualmente em circulação pode significar algo como… um comboio de manhã e outro à tarde.

Não pagamos

Recordam-se do bloqueio da Ponte 25 de Abril, nos idos de 90? Eu sim. Recordo-me, por exemplo, de Ferreira do Amaral, então Ministro das Obras Públicas, relativizar o aumento da portagem equivalendo-o a uma bica diária, e logo vir o PS abanar o dedinho e dizer não pagamos, e o Abrunhosa abanar o dedinho e dizer não pagamos, e o amigo Vara a buzinar e a não pagar (como sabemos, Armando Vara prefere que lhe paguem a ele).

 

Avancemos um par de décadas.

 

António Costa apresenta uma “portagem” para Lisboa; constitucionalistas afirmam que isto é inconstitucional por ser um imposto mascarado. O que diz o Mestre em Sociologia Económica (o que quer que isto seja) Fernando Medina, vice de António Costa? Minimiza a taxa, afirmando que equivale a “pouco mais do que uma bica diária”.

Circo

Em Janeiro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, opunha-se ferozmente à lei da Convergência de Pensões proposta pelo governo afirmando-a “ferida de morte” de inconstitucionalidades.

 

Em Novembro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva antecipe as eleições legislativas do próximo ano – apesar de a lei (aprovada em 1999) afirmar, preto no branco, que devem ser marcadas para o período entre 14 de Setembro e 14 de Outubro. Ou seja, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva faça algo – “ferido de morte” de ilegalidades.

 

Se Vieira da Silva, apoiante de Guterres para a Presidência e de António Costa para Primeiro-Ministro, tiver alguma dúvida sobre esta lei, pode pedir esclarecimentos a… António Costa, na altura da aprovação Ministro dos Assuntos Parlamentares e que negociou a lei – ou a António Guterres, na altura Primeiro-Ministro.

 

Tem a sua piada. Em 1999, o PS no governo não se preocupou minimamente com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado. Em 2014, curiosamente, o PS na oposição mostra-se preocupadíssimo com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado.

 

Mais curiosamente ainda, o mesmíssimo PS de António Costa que na oposição se mostra preocupado com os calendários eleitorais poderem dificultar a elaboração do Orçamento de Estado – já está uma semana atrasado na apresentação do orçamento municipal no município onde governa há sete anos, e isto apesar de as eleições respectivas  terem sido no ano passado.

 

Como é que esta gente pode querer ser levada a sério?

Ghetto blaster

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Tao cíclico como o cubo mágico, regressou a alguma blogosfera o não-problema do piropo. As gentes de Esquerda querem-no proibir porque… as gentes de Esquerda gostam de proibir. As gentes de Direita aceitam esta putativa proibição por quererem evitar o rótulo de machistas ou, pior, marialvas direitolas.

 

Não vou escrever aqui sobre o piropo. Vou, antes, afirmar que seria mais produtivo se estas gentes redireccionassem a sua sanha censória para um flagelo que, este sim, assola os espaços públicos: o hiphop e kuduro emitido balisticamente pelas colunas dos telemóveis dos mitras.

 

Eu sei perfeitamente que os defensores do politicamente correcto não tocarão neste assunto nem com pinças: o piropeiro é o macho opressor; os mitras, pelo contrário, logo terão uma socióloga ou historiadora bem penteada a defendê-los como  oprimidos sócio-económicos.

 

E, no entanto, há cidades no Brasil que proíbem (e punem!) a reprodução de música nos transportes públicos. No Japão nem sequer é necessária legislação, pois o simples acto de se falar ao telemóvel num transporte público é encarado como falta de educação.

 

Isto não é uma questão de censura ou de impedir a identidade pessoal: é apenas proteger a nossa privacidade, o nosso direito ao espaço pessoal num local público. Não é, sequer, muito complicado: bastaria legislar pela não reprodução de música nos mesmos locais públicos onde não se pode fumar.

 

Na verdade, nem deveria ser necessária legislação: bastaria bom-senso e educação.