55 anos

Quando cheguei a Lisboa e fui apanhar o Metro no Cais do Sodré:

 

“… a linha Verde encontra-se com perturbações”.

 

Desci no Chiado para mudar para a linha Azul e:

 

“… as linhas Verde e Azul encontram-se com perturbações.”

 

Quando regressava uma hora depois, na estação das Picoas, ficámos um par de minutos dentro das carruagens fechadas e às escuras porque os motores se desligaram.

 

Entretanto, nos painéis informativos, circulava a grande notícia de que o Metro de Lisboa festeja os 55 anos.

 

55 anos – e, pelo serviço que nos vem prestando, já só pensa na reforma antecipada.

Tap-adinhos

Há um manifesto contra a privatização da TAP. Tendo como mentor António Pedro Vasconcelos (suponho que se está já a posicionar para o futuro ministério da Cultura do governo de Costa), conta também com Manuel Alegre, Mário Soares, Miguel Sousa Tavares, Pedro Abrunhosa e Tony Carreira. Todos estes cavalheiros, é bom de ver, são reconhecidos como competentíssimos economistas e gestores – certamente saberão do que falam.

O dono do regime

A TVI24 entrevistou ontem o jornalista Joaquim Vieira, autor da biografia não autorizada “Mário Soares – Uma Vida“. De tudo o que foi dito, uma frase em particular ficou-me na memória pela economia de palavras e absoluta pontaria:

 

“Mário Soares sente-se dono deste regime”.

 

A minha primeira intenção era apresentar Joaquim Vieira como o jornalista que melhor percebe Mário Soares. Contudo, não estaria a ser correcto se o fizesse. O ponto principal é que TODOS sabem muito bem a classe de pulha que o velho Soares é e sempre foi: um político (na mais baixa acepção da palavra) sem outro móbil que não seja o seu próprio interesse (pessoal e de carreira); alguém que olha para a actividade política apenas como um jogo de salões, em vez de como um serviço à comunidade.

 

O que me desilude e desiludiu na corporação do jornalismo é isto. Todos sabem do nevoeiro de mitos que a figura soária construiu à sua volta – e sabem-no porque permitiram e, em certas alturas, contribuiram mesmo para tal. Todos conhecem os negócios de bastidores feitos ou facilitados por Soares em seu prol, em prol do seu séquito de trafulhas e em prol do partido. À corporação de jornalistas nunca pareceu fazer confusão, por exemplo, o sumiço de toda a edição de um livro que desmascarava as actividades subterrâneas de Soares e do seu PS. O próprio Joaquim Vieira, quando menciona estas questões, fá-lo com um encolher de ombros impotente.

 

“Mário Soares não gosta dessa faceta da sua biografia e irrita-se muito quando alguém a aborda”

 

e por isso ninguém a aborda, ninguém o recorda, ninguém fala das malas de dinheiro que vinham a pedido; ou do cortejo de ilustres quadros do partido que visitava os escritórios das empresas de “import/export” angolanas; ou do sumiço de primeiras edições; ou da extinção da revista Grande Reportagem, então propriedade do “amigo Oliveira”, por o seu editor – o próprio Joaquim Vieira – ter-se permitido recordar o passado cinzentíssimo de Soares.

 

Os jornalistas não o recordam porque não querem perder o lugar privilegiado à mesa do dinossauro; não queriam desperdiçar a oportunidade de uma “cacha” cedida por este velho intriguista; ou, simplesmente, porque para uma classe maioritariamente de Esquerda, um pulha “dos seus” é um pulha bom.

 

Os jornalistas não escrutinam e não escrutinaram – e a corte que rodeia este nosso reizinho de opereta comporta-se como se o passado não existisse e o antigo Soares fosse um farol de ética e sabedoria, um Buda à portuguesa.

 

E, no entanto, aconteceu. No entanto, continua a acontecer. Sócrates não foi uma mancha que surgiu do nada. Sócrates é, pelas suas acções e estilo de vida, o mais lídimo seguidor da cartilha soárica. E eu pergunto-me se José Sócrates existiria como existe se a corporação de jornalistas, em tempo próprio, não tivesse compactuado com a impunidade de Soares, evitando assim que uns quantos marginais se achassem “donos deste regime”.

Mein Kampf

Não ditadas a um colaborador próximo mas sim escritas a tinta vermelha, vão aparecendo nos jornais as cartas que Sócrates escreve na sua cela preventiva. O mesquinho em mim pergunta se também terão sido escritas em francês e depois traduzidas pelo autor.

 

Brincadeiras à parte, penso que há potencial para outro best-seller. A Fundação Mário Soares, entre atribuir obras a Sherlock Holmes e armazenar primeiras edições de Rui Mateus, devia publicar as memórias do cárcere de Sócrates. Até já pensei num título que, se me é permitida a imodéstia, parece-me bem chamativo e muito adequado à personalidade do autor: “A Minha Luta“.

Romaria

Romaria (substantivo feminino): peregrinação religiosa a igreja, ermida ou lugar santo.
(dicionário Priberam online)

 

A SIC afirma que a prisão de Évora tem sido espaço de romaria devido a Sócrates. Acho a escolha da palavra romaria particularmente feliz, pois acreditar na inocência de Sócrates só pode, mesmo, ser uma manifestação de fé. 

 

NOTA: estou convicto de que, à conta de Sócrates, já houve mais gente a visitar Évora nesta semana do que passageiros a aterrar no Aeroporto de Beja – desde a sua inauguração.

A queda

Stasi-files.jpg

O geriátrico Soares foi ontem visitar o amigo e “bom homem” Sócrates à prisão. De cabeça perdida à saída, pois vergonha ou moral nunca teve para perder, disparou em todas as direcções.

 

O que afligia Soares? Ver um amigo, bom homem e impecável primeiro-ministro, vítima de um auto-de-fé? Sentir a sombra negra do fascismo abater-se de novo sobre a sua tão amada pátria, com prisões na calada da noite? Ver esse pilar da ética republicana chamado Partido Socialista sob uma perseguição política? Acordar de manhã e ver que já não tem fraldas na despensa?

 

Não. O velho Soares está desesperado (pois foi medo aquilo que lhe pressenti ontem) porque vê Ricardo Salgado, Maria de Lurdes Rodrigues, Armando Vara, Isaltino, Sócrates a braços com a justiça. Soares pressente o final da impunidade de que gozava toda uma mole de “bons rapazes e raparigas” que se serviam do Poder e da sua proximidade como se fossem Donos Disto Tudo. Soares receia que, finalmente, ele próprio veja a sua imunidade soárica revogada. E imagino que, algures nas catacumbas da sua fundação manhosa, filas e filas de máquinas trituradoras estejam a reencenar aquilo que foram os últimos dias da Stasi por alturas da queda do Muro.

O Segredo

Andam agora os defensores de Sócrates muito preocupados com a violação dessa coisa chamada “segredo de justiça”. Eu gostava de saber, em particular, o que diz sobre o tema o líder parlamentar socialista Ferro Rodrigues, que há uns anos foi gravado a dizer precisamente estar-se cagando para o segredo de justiça.

Sócrates is in the building

208073_1780133182198_1205478900_31584212_5254237_n

A decisão de Carlos Alexandre quanto à medida de coação a aplicar a José Sócrates enquanto aguarda julgamento é um sinal. Um sinal de várias coisas.

 

A primeira é expressa no fundamento da própria decisão: deixar Sócrates em liberdade representava um risco para a integridade da investigação. Ao que parece, a PGR concorda. Outra, menos expressa mas também evidente, parece apontar para o facto de haver provas incriminatórias que deixam, ao juíz, poucas dúvidas e lhe dão o à-vontade de deixar em prisão preventiva alguém com o perfil mediático do ex-PM. Também parece que a Justiça deixou de ser apenas um sorvedouro dos recursos públicos e começou, de facto, a funcionar. Sem olhar a nomes ou tendências políticas (o caso dos vistos gold ilustra na perfeição este argumento).

 

Na mesma semana em que foi publicado um estudo que mostra o que todos sabiam em relação ao Magalhães, que foi um rotundo fracasso, o seu principal vendedor voltou a colocar Portugal nas bocas do Mundo.

 

Por fim, algumas notas:

1. Panfleto de propaganda online: Câmara Corporativa (ao bom estilo Mohammed Saeed al-Sahhaf)

2. Eu bem avisava…