Indecisão

O Combate de Blogs, programa relativamente simpático que eu observo com assiduidade na TVI24, publicou as suas nomeações para os melhores blogs de 2011. Nomeados na categoria Blog De Esquerda, estão o Jugular e o Câmara Corporativa. Parece-me sintomático que estes dois façam parte daquilo que é considerado o melhor da blogosfera de Esquerda. Só ainda não consegui decidir se é um sintoma do triste estado da Esquerda na blogosfera – ou se é simplesmente um sintoma do triste estado da Esquerda.

24 anos não é coisa de crianças, já é maioridade

Nesta notícia, aquilo que mais me chama a atenção é o seguinte parágrafo:

 

Assim, Portugal vai demorar 24 anos (até 2036) a reduzir um excesso de dívida que criou em seis anos, visto que em 2004, o rácio da dívida era de 57% do PIB.

 

Ideia de crianças, dizia o outro? Vejamos a coisa por este prisma: uma criança que nasça hoje terá 24 anos quando a dívida estiver ao nível de antes de Sócrates (há seis anos).

The Horde

Basílio Horta voltou a mostrar o que é: um velho mal educado, politicamente repugnante, peçonhento, arrogante na sua nulidade e sobranceiro na sua ordinarice. Um velho vulgar e dispensável, lamentavelmente eleito para representar não se sabe quem, um velho triste e subserviente de uma cartilha, criada por políticos profissionais para políticos profissionais, que luta desesperamente para se agarrar, seja como for, ao “tacho”. Um velho inflado e encarnado, cheio até às suadas costuras de fel e amargura, que vai destilando à medida que trilha o seu tremendamente sinuoso percurso político.

 

Pedro Nuno Santos, o vice do cabelo “à Sócrates”, o homem que, seguramente inebriado, perdeu o super-ego e proferiu os disparates que se conhecem, apresentou-se ontem na AR e ousou defender a sua honra. A honra defende-se com acções e comportamentos, não com palavras vazias. Não está, por isso, ao alcance de canalhas caloteiros que acham perfeitamente legítimo utilizar a dimensão da dívida como uma forma de ameaça. Não se pode, no entanto, exigir mais a uma produção fictícia do socialismo moderno português, a uma figura cheia de nada que apenas se pode destacar pela sua flatulência verbal.

 

Zorrinho (uma versão apequenada e com olhos de carneiro mal-morto do Zorro?), afrontou a AR ao confrontar a sua Vice-Presidente, em pleno exercício de funções. Naquela postura desafiante de barraqueiro bem vestido, com aquele tom enervante de homicida que não confessa o crime, lá vai subindo a escada rosa, cada vez menos íngreme, por sinal.

 

Joana Amaral Dias juntou-se ao circo, restando saber qual é o seu papel, defendendo os seus colegas de partido (ainda o são, ou a senhora já mudou outra vez?). Afirmou que Pedro Nuno Santos tinha estado muito bem e deu a entender que a criatura aproximou o PS de uma ideologia de esquerda. Basta olhar para Joana Amaral Dias, debaixo da camada de betume que lhe cobre a face, para perceber que é uma mulher que defende firmemente os ideais de esquerda.

 

Isabel Moreira não merece atenção. É um zero!

 

Vileza

Os vice-presidentes da bancada parlamentar socialista são tantos que, na prática, é um título que nada vale. Como diria um filósofo, todos são vice-presidentes – e por isso ninguém o é.

 

O António, lá atrás, comenta as declarações de Pedro Nuno Santos, vice-presidente da bancada socialista e líder do PS-Aveiro e pretérito presidente da JS. Eu acrescento o pormenor de PNS, certamente para evitar interpretações abusivas das suas palavras, vir esclarecer que:

 

“Eu não disse que o Governo português não deve pagar a dívida e honrar os seus compromissos. Aquilo que eu digo na minha intervenção é que o Governo português tem obrigação de defender os interesses do seu povo e que os interesses do povo que o elegeu estão em primeiro lugar. Numa situação de grande dificuldade, e se se agravar, o Governo deve usar todas as armas negociais ao seu dispor para impor condições mais favoráveis ao pagamento da própria dívida”, explica.

 

Mas e que armas são essas? “Só temos uma arma: a própria dívida”, responde.

 

A maleabilidade de princípios destes políticos carreiristas enternece-me. Por um lado, “claro que pagamos”; por outro lado, “portem-se bem senão não pagamos”. A ideia de que a arma para negociar a dívida é a própria dívida, mais não é do que colocar em prática a teoria “se devemos bastante dinheiro ao credor, é o credor que está em apuros” (e que eu já invoquei a propósito do devedor-mestre).

 

Carlos Zorrinho, esse, o (único) presidente da bancada socialista, veio fazer aquilo que os jornalistas benevolentes chamam “colocar água na fervura” – e eu chamo “falta de vergonha”. Que “devemos ter em conta o contexto em que as declarações foram feitas”; que “usou uma imagética muito rica e eventualmente excessiva”.

 

Não lhe faz confusão, a este ingénuo Zorrinho, que as declarações tenham sido proferidas por alguém que é, logo por azar, membro da comissão parlamentar de acompanhamento das medidas da troika, e que por isso devia ter a noção do peso que tais inanidades têm na imagem do país. Talvez devamos recordar que Cavaco Silva exigiu a demissão de alguém por causa de uma anedota. Zorrinho, por seu lado, não demite a própria anedota – antes “mantém a confiança política”.

 

E é este o PS que temos e temos tido. Um PS que hoje se está marimbando para os nossos credores, se está marimbando para o banco alemão que emprestou dinheiro a Portugal, se está marimbando que nos chamem irresponsáveis – tal como no passado se esteve “cagando” para o segredo de justiça.

 

Vil.

A essência do PS

O partido socialista, nesta altura da sua existência sem rei nem roque, está, paradoxalmente, a mostrar a sua essência mais do que alguma vez se atreveu a fazer no passado. Primeiro, através do ex-líder despótico que, a partir do seu exílio dourado, afirmou, para quem quisesse ouvir, que a ideia de um Estado pagar a sua dívida é infantil. Agora, isto.

 

Uma frase como “Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e franceses – ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos.”, proferida por um vice-presidente da bancada parlamentar da dita agremiação, diz tudo sobre ela. A dita bancada, que mais parece um painel de honra da Masnada napolitana, tem sido, aliás, pródiga neste género de atitude. Vejo agora que fui injusto ao afirmar que o ps de seguro não propõe medidas…

O Rocky Balboa da política portuguesa

Eu gosto do joão galamba. Não por causa da criatura em si, prepotente, deslocado e com tendência para dizer disparates, mas porque sei que me vai proporcionar momentos televisivos ou radiofónicos de grande satisfação.

 

Sucede isto porque, a seguir a cada intervenção sua, é justa e violentamente sovado pelo seu interlocutor, seja este o Governador do Banco de Portugal, o Ministro das Finanças, a Maria João Avillez ou um qualquer deputado a quem lhe apeteça descarregar as frustrações de um dia-a-dia enfadonho. João galamba é uma espécie de Rocky Balboa da política contemporânea portuguesa, mas sem as vitórias ou os fulgurantes momentos de glória: apenas o olhar vazio e a face ensanguentada após mais uma sova. Tal como Rocky, vai regressando para uma interminável sequência de combates que, ao contrário de Rocky, perde. Tal como Rocky, vai-se aguentando de pé depois de cargas indescritíveis de porrada.

 

E nós, aqui, a aplaudir e a torcer para que assim se mantenha. Enquanto houver galamba, há espectáculo.

Não foi para isto

Eu gostava de dedicar algum do meu tempo a estas recentes declarações de Sócrates e às reacções dos seus apaniguados. Sempre tive curiosidade pelas manifestações de irracionalidade que, persistentemente, contrariam o título de “único animal racional” com que a nossa espécie se arroga.

 

Mas não o consigo fazer. Só consigo escrever um par de parágrafos apressados. As gentes em questão não merecem muito mais da minha atenção.

 

Sócrates disse, ou a sua claque quer dar a entender que o disse, que a dívida de um país é eterna – o que deve é ser contida dentro de limites razoáveis. Aquilo que critico não é a legitimidade desta teoria: acho-a defensável (dentro de limites). O que eu critico é ele argumentar com algo que o próprio, premeditadamente, não cumpriu: “dentro de limites razoáveis”. Critico também que ele dê a entender que, em algum momento, alguém agora no poder tenha afirmado que o país devia pagar a totalidade da sua dívida com um cheque. Isto tem nomes: hipocrisia, desplante, desonestidade.

 

Sócrates comportou-se criminosamente, endividando sempre mais o Estado para a sua preservação no Poder (aumento absurdo dos funcionários públicos antes das legislativas) e para sustentar projectos de viabilidade questionável e legitimidade duvidosa. Sócrates tentou levar por diante a expressão irresponsável: “se devemos cem mil euros a um banco e não podemos pagar, estamos em apuros; se devemos dez milhões de euros a um banco e não podemos pagar, o banco está em apuros”. No regabofe de velhacarias que se mostrou o seu consulado, Sócrates considerou a dívida uma coisa eterna, sim – e fê-la tender para infinito.

 

E ver a bloga socrática defendê-lo, apesar de tudo o que se passou e foi feito, tem tanto de fascinante como repulsivo – um pouco como quando eu, na minha infância, observava com fascínio os cadáveres de animais atropelados serem gradualmente consumidos pelas formigas e escaravelhos. Ver os jugulares, os corporativos, os valupis, as isabeis moreiras e os anónimos desta blogosfera defender um louco irresponsável com o grau de abnegação com que o fazem, é para mim um exercício de pura incompreensão. É ver de novo mulheres escreverem declarações de amor a Ted Bundy; é ver de novo hordas de fanáticos predisporem-se ao sacrifício ou à perpetração de atrocidades em nome de um ditador.

 

Reparem neste dislate já antigo do Valupi:

 

“[Augusto] Santos Silva esmagador é a norma. Ele tem as informações, a boa-fé e a literacia.”

 

Ou nesta idiotice, lida recentemente nos comentários do AspirinaB:

 

“Ouvir Sócrates em mais um exercício de inteligência, honestidade intelectual e elementar sensatez foi um gosto.”

 

Galamba, Isabel Moreira, f, Lello, Augusto Santos Silva, Vitalino Canas e anónimos da blogosfera que defendem o indefensável, justificam o injustificável: quem são estas gentes? Idiotas? Tão loucos como aquele que defendem? Desprovidos de auto-estima que se dispõem a estas figuras tristes, como um cachorro patético que abana a cauda deliciado com uma atenção distraída do dono?

 

Ou, pelo contrário, serão tão igualmente egocêntricos, incendiários que vão observar os fogos que ateiam, que colocam o seu ego acima de tudo, até do país onde nasceram, cresceram e vivem, e preferem como Lúcifer “reinar no Inferno a servir no Paraíso”?