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Podia, mas não era a mesma coisa

Eu às vezes acho que somos um pouco injustos para com António José Seguro. Dizemos que o homem é aborrecido e sonso, mas ele até é um pândego, sempre pronto a alegrar o ambiente com uma piada:

 

António José Seguro garante que o PS também sabe governar com rigor, disciplina orçamental e pôr as contas públicas em ordem.

 

Se o PS podia governar com rigor e disciplina orçamental? Podia, mas não era a mesma coisa.

Os três estarolas

Na passada quinta-feira, uma homenagem a Manuel Tito de Morais juntou na mesma sala Mário Soares, Manuel Alegre e Almeida Santos – e o habitual rebanho de jornalistas que segue tais pastores. Manuel Alegre afirmou:

 

“(…) sabemos que nos últimos tempos têm havido casos, alguns deles ainda impunes, que são um verdadeiro escândalo [de] gente que esteve no Governo e se governou.”

 

“Estou a pensar nas mesmas pessoas em que vocês estão a pensar”, respondeu o frontal e corajoso Alegre quando questionado pelos jornalistas sobre a quem se referia. O que não deixa de ter a sua piada, pois quando eu penso em gente que usou o Poder (ou a sua proximidade) para “se governar”, há três nomes que imediatamente me vêm à memória: Mário Soares, Almeida Santos – e, em menor escala, Manuel Alegre.

Escorregadio como uma enguia

António José Seguro já vem dizendo que Portugal não pode voltar à despesa de há dez, vinte ou trinta anos. Vamos passar por cima do detalhe de muito do mal ter sido causado pela despesa de há quatro, seis ou oito anos. A questão é que Seguro, agora, hoje, já quer um “acordo alargado” sobre a despesa. Amanhã, logo se verá.

 

Isto, vindo de quem vem, só pode ser para rir. Tendo Seguro, na prática, sabotado a hipótese de acordo alargado sobre a reforma do Estado que Cavaco Silva propôs, e tendo Seguro radicalizado cada vez mais o seu discurso, vir agora fazer cara de santo e propôr “acordos alargados definindo limites para a despesa primária” é de uma hipocrisia digna do seu partido. Que se seguirá, Seguro propor que o défice e a dívida tenham limites impostos na Constituição?