António Costa é um profeta

É preciso ter consciência de que para muita gente o culpado pela austeridade é Passos Coelho e não Sócrates. Eu já ouvi bastas vezes, demasiadas vezes (uma vez já seria uma em excesso) alguém comentar numa conversa de rua: “Sabes, se houvesse agora eleições, votava Sócrates. Pelo menos com ele, as coisas não estavam assim tão más”.

 

É por isso que eu concordo com as palavras de António Costa – mesmo que certamente não com o sentido que lhes pretendeu dar: “Um país sem memória é um país sem futuro“. É verdade: um país e um povo que, não tendo memória daquilo que foi o consulado socrático e a situação em que nos deixou, sentem-se tentados a recebê-lo de volta – não têm futuro.

 

Mais: talvez nem o mereçam ter.

1460 cantoneiros de limpeza

Entretanto, eu próprio fiz uma leitura na diagonal ao Mapa de Pessoal da CML. Um número chamou-me a atenção: 1460 cantoneiros de limpeza. Qual é a descrição deste trabalho?

 

Cantoneiro de Limpeza – Procede à remoção de lixos e equiparados, varredura e limpeza de ruas, limpeza de sarjetas, lavagem das vias públicas, limpeza de chafariz, remoção de lixeiras e extirpação de ervas; é responsável pelos equipamentos sob a sua guarda e pela correcta utilização, procedendo, quando necessário, à manutenção e reparação dos mesmos.

 

A Câmara tem ao seu serviço 1460 funcionários cuja tarefa é a limpeza das ruas da cidade. E apesar disso, quando se vê o nojo em que a cidade se converteu, mais parecem ser – 10.

 

 NOTA: fotografias retiradas do blogue Sorumbático.

Mais 0.36% de juristas

O blogue Má Despesa Pública (que presta bom serviço público) chamou a atenção para a Câmara Municipal de Lisboa ter contratado um jurista no final do ano passado – e de este ir receber 74.846 euros por 22 meses de trabalho (cerca de 3400 euros mensais). Isto, só por si, talvez não fosse razão para polémica – não se desse o caso de a CML já ter na sua lista de pessoal 278 outros juristas.

 

278 juristas! Como é que uma Câmara Municipal quase paralisada (e, quando não está, mais valia que estivesse) consegue gerar trabalho suficiente para 278 juristas?

Mas o cheque, esse, segue pelo correio

Maria Teresa Horta, comunista, ex-militante do PCP, recusou ir receber o Prémio D. Dinis porque este lhe seria entregue por Pedro Passos Coelho.

 

“Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos – pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”, explicou Maria Teresa Horta à Lusa.

 

Há aqui várias questões que acho curiosas.

 

Para começar, Maria Teresa Horta é uma democrata – ou pelo menos afirma-se como tal. Por isso, é irónico que se recuse a receber um prémio das mãos de alguém que, concorde ou não com ele, foi eleito democraticamente pelo povo que ela tanto diz defender. Pelo contrário, este perigoso destruidor dos “valores de Abril” chamado Passos Coelho estava disponível para entregar um prémio a alguém com quem, imagino, não tem grande afinidade política e de cuja obra – sou capaz de apostar – não é grande admirador. Fosse Maria Teresa Horta uma pessoa de facto frontal e coerente, iria receber o prémio – e diria pessoalmente o que vem articulando pelos jornais. Mas estas pessoas de esquerda só sentem legitimidade nos eleitos – quando são os seus.

 

Depois, Maria Teresa Horta repete-se muito honrada pelo prémio que lhe foi atribuído e pelo júri que a considerou merecedora dele. Apesar disso, não se impede de mostrar como a sua vaidade e as suas antipatiazinhas se sobrepõem a tanta honra e a tanto reconhecimento. Quando coloca o seu ego e o prémio D. Dinis na balança, esta inclina-se visivelmente para o primeiro.

 

Maria Teresa Horta diz que Passos Coelho “está determinado a destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril”. Ora quanto mais eu sei do pensamento político de “fazedores de Abril” como o camarada Otelo ou o camarada Vasco, mais me parece óbvio que se estes tivessem levado a sua avante, estaríamos sob um regime em que alguém como Maria Teresa Horta, por se recusar a receber um prémio das mãos do chefe de Governo, usufruiria de um período de reeducação a expensas do Estado. Ao invés, perante este “destruidor de Abril”, é notícia de jornais e tem publicidade gratuita.

 

Para terminar, pois isto já é uma atenção desproporcionada: Maria Teresa Horta recusa receber o prémio – que muito a honra – de mãos que a desgostam. Mas o cheque, o chequezinho, esse segue pelo correio e não se recusa. Acho que Fernando Albuquerque, presidente da Fundação Casa de Mateus, coloca a questão muito bem: Maria Teresa Horta “receberá o cheque em casa e fica o caso encerrado”.

Sobre o serviço público da RTP1

Andam por aí uns senhores inquietos, palpitando em defesa da RTP: há um ataque organizado do governo ao serviço público de televisão, acusam esganiçados.

 

Vejamos então um pouco de televisão.

 

Ontem de manhã, a TVI24, um canal de cabo privado, transmitiu o documentário de Jim Al-Khalili Everything and Nothing:

 

 

Ontem à tarde, a RTP1, canal público sustentado maioritariamente com muitos milhões saídos do bolso dos portugueses, transmitiu o filme Fogo Cerrado com Steven Seagal:

 

 

Qual destes dois canais prestou o que consideram serviço público de televisão, senhores defensores da RTP1?

Por Qué No Te Callas [7]

Soares já com olhar vago

Soares anda no paraíso. Os jornalistas acorreram a colocar-lhe o microfone à sua frente e, como um velho comediante decadente sempre pronto a mais uma pilhéria, Soares não nos desiludiu: diagnostica o Governo como estando moribundo e quer que Cavaco Silva nomeie um governo sem recurso a eleições antecipadas. Estas últimas são curiosas palavras vindas de quem sempre tem afirmado que o voto popular é soberano.

 

A verdade é que não vou censurar a performance do velho Soares. Soares é como é e como sempre foi; há coisas que são como são, está na sua natureza. Esperar que o jurássico Mário Soares não seja um canalha é tão irrealista como esperar que uma vaca se torne, de súbito, caçadora.

 

Não; o que coloco em análise é a quase inexistência do nosso jornalismo. E apresento apenas dois (de vários possíveis) argumentos.

 

Primeiro, cada vez mais as notícias são meras retransmissões da mesma fonte. Isso é particularmente óbvio na presença online dos jornais: é um título chamativo para caçar cliques e subir no ranking da Google; é a colocação de uma história sem qualquer confirmação da mesma; é a mera colagem de um texto que já veio preparado de algures.

 

Neste caso, é evidente. Público, I, Sol, Expresso (e certamente mais alguns, mas não tive tempo para ser exaustivo), todos eles transcreveram online a mesma história mastigada pela Lusa – ipsis verbis:

 

Sol: Mário Soares quer substituição de Governo ‘moribundo’ sem eleições antecipadas

 

Expresso: Mário Soares diz que Governo está “moribundo” e deve demitir-se

 

I Online: Mário Soares sugere nomeação de novo governo sem recurso a eleições antecipadas

 

Público: Soares diz que Governo está “moribundo” e deve ser substituído

 

Segundo, já quase não há jornalistas. Atente-se nesta notícia: Soares diz o que bem entende, como o entende dizer e sem qualquer contraditório. Soares, ao invés de ser interrogado, deixa ele perguntas aos jornalistas. Parece que ninguém nas redacções ensina a estes novos “jornalistas” que o seu papel, quando se justifica, é escrutinar o que lhes é dito; é pedir explicações sobre as contradições de quem está à sua frente; é ter a coragem de não se deixar amedrontar ou impressionar com o entrevistado.

 

Estes jornalistas, quiçá uns miúdos estagiários que tentam ganhar uns trocos, olham para o senescente Soares com o temor reverencial que é inspirado por um enorme celacanto falante – e bloqueiam. Ou talvez, simplesmente, não possuam qualquer conhecimento da História recente.

 

Como, pergunto eu, como é possível que um qualquer jornalista que se ache merecedor de tal título tenha ouvido de Soares, como justificação para a substituição do Governo:

 

“A crise está instalada. Querem maior crise do que o país a gritar ‘vão-se embora’ e a chamar ‘gatunos’ aos membros do Governo? Foi o que aconteceu no sábado”

 

sem lhe perguntar imediatamente:

 

Mas então, em que é que isto é diferente de 83-85, era o senhor Primeiro-Ministro, o FMI estava cá, as manifestações sucediam-se, as greves seguiam em fila indiana, o povo pichava nas paredes “Governo Soares/Mota Pinto rua!” e “FMI fora de Portugal” – e o senhor permaneceu no poder sem sentir a sua legitimidade minimamente beliscada?

Cravinho

À saída da comissão de inquérito às Parcerias Público Privadas (PPP), João Cravinho disse que a descida da TSU é um erro colossal.

 

João Cravinho, convém não esquecer, foi o tal que usou e abusou do conceito das SCUT e, anos depois, disse: “Esperem lá… e se o pessoal cobrar as SCUT?”.

 

Sem esperar, Passos Coelho recolheu aqui um importante argumento a favor da sua medida.