Incómodos

(excerto do Plano Inclinado de 12.02.2011, imediatamente “repensado” pela direcção)

 

Para mim, não há melhor atestado às qualidades de um homem – do que vê-lo a ser atacado por este PS.

 

O que diz o PS da sua candidatura à Presidência da República? O alcaide Costa tenta ignorar com um “não tenho nenhum comentário a fazer” – seguindo a velha tradição socialista de varrer os problemas para debaixo do tapete na esperança de ninguém dar por eles. José Lello, o baladeiro José Lello, o sempre elegante José Lello, chama-lhe o “Beppe Grillo português”. Augusto Santos Silva, o da fina ironia, afirma-o um anónimo que apenas “deseja aproveitar quinze minutinhos de fama”. Um ex-governante de Sócrates desconfia “logo dessas pessoas que dizem que vêm dos bons costumes” – é muito apropriado ver um socratista desconfiar “dos bons costumes”.

 

Ora quem é Henrique Neto para causar tal reboliço no PS? Desde logo, é um empresário que não precisa da política para viver – e o PS sempre olha com desconfiança e, mesmo, desdém, para aqueles que não necessitam dos jogos de cadeiras para fazerem a sua vidinha. Depois, Henrique Neto é um socialista que não se coíbe de acusar os podres do seu partido – e isto, para o PS, é imperdoável, pois um canalha dos seus é um bom canalha. Henrique Neto criticou a clique soárica; foi um crítico da flacidez do guterrismo; foi também uma voz crítica do protofascismo socrático e da imensa promiscuidade política/negócios que foi apanágio desse regime. Henrique Neto apoiou António José Seguro – ninguém é perfeito! -, mas demos-lhe um desconto: fê-lo com a esperança de que Seguro limpasse o PS de todo o lixo humano incrustado no partido desde o socratismo.

 

Santos Silva, o Augusto (não confundir com o Carlos), diz que Henrique Neto pretende ter quinze minutinhos de fama. Lamentável exercício de desconversa! Henrique Neto, ao contrário do coiso que opinou, é um empresário que se fez e cuja opinião é muitas vezes procurada por ser respeitada – não por ser eternamente parte dos corsos partidários. Não precisa de “quinze minutinhos” de fama porque já teve muitas vezes isso no passado e continuará, esperemos, a tê-los no futuro. A não ser, claro, que a imprensa marcadamente alinhada com Costa o passe a ignorar. Nada que me surpreenda, pois após a sua presença no programa “Plano Inclinado” da Sic-Notícias, durante o qual se dedicou a expor as ligações umbilicais entre os políticos (no geral e do PS em particular) e a maçonaria, a Sic-Notícias de Balsemão e dirigida pelo soarista António José Teixeira imediatamente suspendeu o programa e anunciou o seu “repensamento”.

 

Sim, Henrique Neto deixou o PS desconfortável com a sua candidatura à Presidência da República. Aliás, também ME está a deixar desconfortável, pois dada a concorrência que se perfila, pondero assim o – até hoje – inédito: votar num socialista.

A lista [1]

No Sábado, ao passar por um televisor sintonizado na SIC-Notícias (onde mais?), li em rodapé (e daí não deveria ter passado): “Oposição quer que Paulo Núncio e ministra das Finanças retirem consequências políticas”.

Ora: e porquê ficarmo-nos por aqui? Porque não sermos realmente ambiciosos, por uma vez? Porque não exigir também a demissão do primeiro-ministro que nomeou a ministra que escolheu o Secretário de Estado que manteve o Director? E porque não exigir a renúncia do Presidente da República que deu posse ao Primeiro-Ministro que nomeou a ministra que escolheu o Secretário de Estado que manteve o Director? E porque não exigir a demissão do eleitorado estulto que votou no Presidente da República que deu posse ao Primeiro-Ministro (também eleito por esse eleitorado ingrato) que nomeou a Ministra que escolheu o Secretário de Estado que manteve o Director?

Copo meio-cheio

O presidente do sindicato dos trabalhadores dos impostos diz que os responsáveis pela (agora) famosa lista-VIP “atentaram contra o Estado de direito e contra os interesses dos portugueses”. Curiosamente, não me recordo de ainda ter ouvido o senhor presidente do sindicato dizer, dos funcionários que acederam sem justificação processual a dados confidenciais de alguns contribuintes por auto-recreação, tédio ou pura malícia, que “atentaram contra o Estado de direito e contra os interesses dos portugueses”.