Como se eu ainda precisasse de ser convencido…

Sampaio da Nóvoa avança para Belém “inspirado em Soares e Sampaio”. O proto-candidato vê neles “um legado de liberdade e uma herança que temos a obrigação de honrar e de renovar”. Sim: Soares, o cavalheiro que passou um mandato a fazer campanha contra o Governo de Cavaco Silva (“o gajo”) e não descansou enquanto não viu o seu PS no governo; Sampaio, o cavalheiro que geriu a sua agenda e arranjou uns pretextos manhosos para deitar abaixo um governo maioritário, só descansando quando viu o seu PS no governo. Soares deu-nos Guterres; Sampaio deu-nos Sócrates; Sampaio da Nóvoa quer-nos dar António Costa.

 

Talvez seja a isto que se costuma chamar “pesadas heranças”.

Não havia nexexidade

Passos Coelho elogia Dias Loureiro qualificando-o como “um empresário bem-sucedido”. Passos Coelho, pelos vistos, está mortinho por perder as eleições.

 

Não é nada que não se tenha visto antes. Quando Armando Vara era um “banqueiro bem-sucedido” (após ter sido um bancário mal-sucedido), recordo-me de ver Jorge-Mota-Engil-Coelho gabá-lo como “uma formiguinha de trabalho”. Jorge Coelho, não o esqueçamos, grande amigo de Dias Loureiro. Isto é um círculo muito fiel…

Pornografia

Um partido que já tinha no seu historial dois apelos ao FMI. Um partido que deixou, em 2011, o país em pré-falência. Um partido que está, ele próprio, na bancarrota, devendo 11 milhões de euros à banca e limitado a soluções de recurso para fazer face às despesas correntes (numa curiosa reedição, à sua micro-escala, daquilo que fez em macro-escala no país).

 

Um partido com este historial entregou-se, no Domingo, a uma celebração masturbatória com o beneplácito de uma comunicação social que lhe prestou vassalagem com vastos directos – mas sem que eu tenha notado um especial escrutínio ao que se via.

 

Serei o único a sentir-se incomodado com isto?

Um aroma

O PS está devedor de 11 milhões de euros à banca. O PS, para sustentar a campanha eleitoral que se aproxima, pretende financiar-se na banca em mais 1,5 milhões de euros.

 

O PS, por outro lado, já veio prometer pela voz do seu presidente que, em sendo eleito, tapará o buraco cavado no BES, tal como no passado recente fez aqueloutro cavado no BPN. Este é o mesmo PS que, à frente da autarquia de Lisboa, tomou múltiplas decisões que beneficiaram directa e indirectamente o supracitado BES. Este é o mesmo PS que sempre se apresta a amparar com mãozinha carinhosa e amiga (e bem recheada de dinheiro do contribuinte) qualquer trafulhice banqueira.

 

Há toda uma pestilência de promiscuidade a envolver isto sem que a ninguém pareça importar.

Ainda ou de novo?

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(recorte de Imprensa Falsa)

 

14:20 – os painéis electrónicos do Metropolitano de Lisboa indicavam que a circulação na linha Azul estava normalizada.

 

15:20 – os painéis electrónicos do Metropolitano de Lisboa indicavam que a circulação na linha Azul estava normalizada.

 

Das duas, uma: ou a circulação AINDA estava normalizada, e é triste que o Metropolitano de Lisboa se pareça congratular durante uma hora por uma normalidade que devia ser isso mesmo; ou a circulação estava DE NOVO normalizada – e isso seria ainda mais triste.

 

É um péssimo estado de coisas, este, em que eu não aposto dinheiro na primeira hipótese.

As greves encapotadas

Costumo usar os serviços do Metro de Lisboa um mínimo de quatro vezes por dia. Não me recordo do último dia em que NÃO encontrei pelo menos uma linha com:

“Senhores passageiros, a circulação na linha XYZ encontra-se com perturbações. O tempo de espera pode ser superior ao normal. Pedimos desculpa pelo incómodo causado.”

No último Sábado, foi:

“Senhores passageiros, a circulação na linha Azul encontra-se com perturbações (etc)”

Na Segunda-Feira:

“Senhores passageiros, a circulação na linha Azul encontra-se com perturbações (etc)”

Na Terça-Feira de manhã:

“Senhores passageiros, a circulação na linha Azul encontra-se com perturbações (etc)”

 

Ding dong

 

“Senhores passageiros, a circulação na linha Verde encontra-se com perturbações (etc)”

 

Ding dong

 

“Senhores passageiros, a circulação na linha Amarela encontra-se com perturbações (etc)”

 

Ding dong

… e voltou ao início. “Lá se safou a linha Vermelha”, pensei eu. Puro engano. Nessa tarde:

“Senhores passageiros, a circulação na linha Vermelha encontra-se com perturbações. (etc)”

Alguém tem que levar este assunto a sério. É necessário esclarecer, de uma vez por todas e para lá de qualquer dúvida, se estas contínuas “perturbações” se devem a problemas técnicos, o que seria mau pois somos privados de um serviço para o qual, na maioria dos casos, os utentes pagaram antecipadamente via passe ou pré-comprados; ou se todas estas “perturbações” são criadas pelos próprios maquinistas e restantes funcionários – o que seria ainda pior pois estariam a fazer uma greve não assumida e a lesar os utentes, usando-os como arma na chantagem exercida sobre a administração.

 

Porque acredito mais na segunda hipótese? Por termos o sindicalismo que temos: insensato, desonesto e anacrónico.

106 anos

Se génio ou não, dado o pouco que conheci da sua obra, não me vou pronunciar. É a minha opção, mas sei perfeitamente que muitos não me acompanham: vai haver, por essa blogosfera fora e em particular na bem-pensante, muita carpideira, muita homenagem de lugares comuns, muita cinza na cabeça e muito punhado no peito pela morte do Artista – vindos de quem não terá visto um único dos seus filmes ou, tendo visto um, se riu dele à mesa do café.

 

Eu prefiro dizer outra coisa: Manoel de Oliveira sempre me pareceu uma pessoa genuinamente educada e simpática. E isto hoje em dia, tendo em conta o calibre de gente de que se costuma falar neste blogue, já para não falar daquela verdadeira e variegada “artistalhada” que se exibe em capas de Luxes e Flashes, debita trivialidades em alta definição ou assina manifestos sobre temas que nem sabe soletrar, é algo que merece realce. O homem que morreu hoje, aos 106 anos, era alguém que sempre me pareceu educado, simpático e que nunca vi mitificar o seu passado nem pôr-se em bicos de pés.

MO.jpg
Manoel de Oliveira é o cavalheiro à esquerda, no carro 10,
a preparar-se para uma corrida no Brasil.