Mitologia

A Esquerda cria mitos em derredor daquilo que Cavaco Silva diz. O jornalismo não faz o mínimo esforço em desmistificá-los – pelo contrário, amplifica-os.

 

Exemplo: Cavaco Silva, ao incentivar um governo com maioria absoluta, está a desincentivar o voto nos partidos fora do arco de governação. Na comunicação de Cavaco Silva, lê-se:

(…) Para alcançar a estabilidade, é frequente na Europa formarem-se governos de coligação. (…) Cabe aos partidos a responsabilidade pelo processo de negociação visando assegurar uma solução governativa estável e credível que disponha de apoio maioritário no Parlamento (…) Em alguns países da União Europeia, as negociações não foram fáceis e exigiram tempo, mas o interesse nacional acabou por sobrepor-se aos interesses de cada um dos partidos.

Cavaco Silva não está a dizer para os eleitores votarem apenas PS ou PSD – está a dizer precisamente que os outros partidos também podem fazer parte das soluções parlamentares.

 

Outra coisa que a Esquerda gosta de dizer: Cavaco Silva, ao incentivar a criação de uma maioria parlamentar, está a negar o seu próprio primeiro governo minoritário e cujo derrube contribuiu para a sua primeira maioria absoluta. E, no entanto, não percebem que no seu próprio argumento está a base de argumentação de Cavaco Silva: o seu primeiro governo minoritário foi derrubado a meio da legislatura.

Esquizofrenia

Começa a parecer um caso de dupla personalidade: o José Alberto Carvalho que ontem entrevistou(*) Passos Coelho não é o mesmo José Alberto Carvalho que entrevistou(*) José Sócrates.

 

(*) Se é que podemos chamar entrevista à tentativa de debate de ontem e entrevista a… servir de teleponto humano a Sócrates.

Pensamento de qualidade

Vi há pouco na televisão uma actriz “comentar” os jornais do dia. A propósito de uma ligeira redução no número de vagas no ensino superior, a artista dizia ser sintomático que tal se verificasse principalmente nos cursos ligados às Ciências Sociais e às Artes. Errado, claro, pois será precisamente investindo nessas áreas que se consegue um eleitorado informado e com espírito crítico que possa decidir com mais qualidade.

 

Posso depreender, pelas palavras da senhora, que esse “espírito crítico” e essa “informação” são obtidos por um maior contacto com as artes e o pensamento artístico. Não é difícil inferir como corolário de tal postulado que os próprios artistas, geradores de tal pensamento, estão em posição privilegiada para “decidir com mais qualidade”. Gostava, então, de recordar que essa estirpe iluminada apoiou em massa Guterres e Sócrates, com os resultados que se viram, e apoia em massa António Costa – com os resultados que se podem prever. Se isto são “decisões informadas e de qualidade”, vou ali e já venho – uma moeda lançada ao ar tem mais probabilidades de estar certa.

Um título milimétrico

O título é todo um tratado de sacanice:

“Super bactérias mais resistentes devido a cortes na Saúde”.

Os editores de jornais online sabem muito bem que, nesta sociedade Google, raras vezes o leitor chega ao final do primeiro parágrafo de uma notícia – e que, quando esta entra no corrupio acéfalo de partilhas e reencaminhamentos nas redes sociais, o título será o único elemento de acesso imediato e pelo qual as pessoas se guiam.

 

Porquê eu chamar sacanice? Porque em vez de

Super bactérias mais resistentes devido a cortes na saúde

os editores poderiam ter optado, por exemplo, por um igualmente económico, muito mais informativo – e muito menos oblíquo

Mundo: Super bactérias mais resistentes devido a cortes na saúde

ou ainda

Super bactérias mais resistentes devido a cortes mundiais na saúde