O cinema português

Está a estrear a primeira parte da trilogia “As Mil e Uma Noites” de Miguel Gomes, um filme político que o realizador assume como não-político – apesar de ser um retrato metaforizado dos “anos da troika” e os dois últimos capítulos estrearem nas semanas anteriores às legislativas. (Gostaria de saber se Miguel Gomes também estaria disponível para filmar retratos metaforizados dos anos do protofascismo socrático.) Gosto sempre de ouvir os realizadores preverem anos de asfixia e paralisia com a subida dos perigosos neoliberais ao poder e com a suposta despromoção da Cultura a Secretaria de Estado. E no entanto… 

 

… e no entanto, recordo-me de pouquíssimas épocas no passado em que se estreassem tantos filmes portugueses e de tantos géneros distintos. Temos tido documentários, comédias, tragédias, farsas, remakes. A paralisia deu em hiperactividade. A asfixia dá-nos filmes de seis horas que são separados em três capítulos.

 

A verdade é esta: com tecnologia barata e ao alcance de todos numa qualquer Fnac, nunca como agora foi tão barato fazer um filme com qualidade técnica (já o talento, infelizmente, é outra conversa). O problema de grande parte da nossa massa “artística” é não conseguir imaginar a sua actividade separada da subsidiodependência, como se ter o selo de um “Ministério da Cultura” no cartaz do filme desse uma qualquer credibilidade acrescida.

A mulher de César

Quando a liderança socialista ainda não convinha a António Costa, este dizia que era incompatível ser presidente da câmara de Lisboa e candidatar-se a tal. Quando o poder lhe pareceu estar suficientemente podre para lhe cair no colo, a incompatibilidade foi às urtigas.

 

Quando António Costa era presidente da câmara de Lisboa, recordo-me de ver, no final de um Expresso da Meia-Noite, Ricardo Costa anunciar que o próximo programa seria sobre as autárquicas em Lisboa e ele, por razões óbvias, não iria estar nessa noite. Quando António Costa se candidatou à liderança do PS, Ricardo Costa colocou o seu lugar de director do Expresso à disposição – imagino que por achar haver razões óbvias para tal. Isso não foi aceite por Balsemão e companhia e é ver, agora, Ricardo Costa comentar alegremente a política nacional como se não houvesse amanhã. Acontece que as razões antes óbvias não deixam de ser óbvias por causa  da “confiança reforçada da administração”.

 

O problema é este: mesmo com eufemismos do género “O líder socialista”, ninguém minimamente informado desconhece a relação familiar entre os dois. Ver Ricardo Costa comentar a actuação do irmão com um “o líder socialista” é como ver João Soares a comentar na televisão o debate entre Cavaco e Soares – e referir-se a este último como “dr. Soares”.  Nem a confiança da administração do jornal, nem um ilusório distanciamento de trato em relação ao objecto em análise conferem qualquer credibilidade acrescida.

 

Sabemos perfeitamente que o Expresso é para Balsemão um meio de influência negocial, não um projecto de verdadeiro jornalismo – se este acontecer, é apenas uma feliz coincidência. Mas Ricardo Costa, personagem por quem até nem nutro particular simpatia, entende-se jornalista e devia ter imposto limites a bem da sua credibilidade. Ricardo Costa poderia ter-se mantido na direcção do Expresso e anunciar que passaria a comentar apenas política internacional. Assim, comentando as acções de campanha do “líder socialista”, Ricardo Costa apenas irá provocar sorrisos sarcásticos em quem o lê.

O bando

Ontem à noite, quando fazia o zapping nocturno, passei pela transmissão do jogo da Supertaça de futebol. Alinhadinhos no banco, estavam Octávio Machado, Jorge Jesus e Bruno de Carvalho. Fizeram-me lembrar aqueles grupos de rufias que, no liceu, se sentavam no muro da escola a fumar cigarros.

A campanha alegre

O PS queria fazer campanha com “histórias reais” de emigrantes e desempregados. Para tal, achou por bem retratá-las recorrendo, sem pedir autorização, a rostos de pessoas – que são colaboradores numa junta de freguesia por si controlada. Aqui está a ironia de toda esta pulhice: o PS apresenta estas histórias com o slogan “respeitem as pessoas” – e faz campanha sobre desemprego e emigração usando a mesma metodologia que para uma campanha de sabonetes. Pior: pede respeito pelas pessoas – e é o primeiro a não respeitar os direitos daqueles que se prestaram a colaborar consigo.

 

Acrescentemos um facto que tem passado por entre os pingos da chuva: há Presidentes de Junta do PS que usam recursos materiais e humanos que pertencem ao Estado para a campanha socialista. Servem-se do Estado – quando o deviam estar a servir. Assim se explica como o director da campanha do PS, Ascenso Simões, planeia poupar 40% em relação aos gastos de 2011: o PS poupa – e nós gastamos.

 

[A propósito: este mesmo Ascenso Simões, director de campanha de António Costa, ainda quer que o Presidente de República condecore o distintíssimo cidadão José Sócrates Pinto de Sousa?]

 

E a meio de toda esta história criminosa, qual o grau de importância que os jornais de hoje lhe atribuíram? Vejamos a área nas primeiras páginas, assinalada com rectângulos azuis (clicar nas imagens para ampliar)…

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O Correio da Manhã dá-lhe o mesmo destaque que a uma orca; o DN atribui-lhe o mesmo espaço que às canelas de Júlio Pomar; o I considera isto ao nível de um Vasco Santana; e o JN consegue o milagre de atribuir-lhe tanta superfície – como a uma foto de, entre todas as pessoas, Maria de Belém. De entre todos, o Público ainda é o que se porta mais benzinho – mas, mesmo assim, desterrou-o lá para o canto da esquerda, a ver se o leitor toma aquilo por um anúncio a aparelhos auditivos.

Acham-se mais do que os outros?

A Ordem dos Nutricionistas (imagino que também haja uma Ordem dos Endireitas) lançou uma campanha sensibilizando o público para o flagelo dos falsos nutricionistas. Ora… se já temos, e com o alto patrocínio do nosso jornalismo, professores que não dão aulas há décadas, engenheiros que não o eram, licenciados não licenciados e economistas da ONU que nunca o foram (nem economistas nem da ONU), porque raio não hão-de os nutricionistas de também ter uns quantos burlões entre si?

Um cretino é um cretino

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Sérgio Figueiredo, o director da TVI amigo de Sócrates, diz que Augusto Santos Silva, ex-comentador da TVI e amigo de Sócrates, é “malcriado”. Figueiredo, na sua resposta à birrinha pública do “finamente irónico” Santos Silva, parece usar também as expressões cinismo, hipocrisia, falta de escrúpulos e egocêntrico. No meio deste episódio, fica-me uma interrogação: Sérgio Figueiredo está surpreendido? De que planeta aterrou?

Tecnicalidades

O Expresso anuncia, e o Sapo dá-lhe direitos de ecrã completo, que o Governo desviou dinheiro do IVA para pagar os Audis sorteados em 2014. Concedo: não é estritamente correcto em termos de planeamento. Mas, fosse no tempo do outro cavalheiro que esteve lá antes, a despesa teria sido feita às escondidas, desorçamentada, e seria descoberta anos depois pelo governo seguinte para acrescentar à dívida pública. Têm saudades desse tempo? Dar tanto tempo de antena àquilo que não passa de uma tecnicalidade legal parece-me um pouco despropositado.