Greve de direitos

E eis que chegou: o glorioso dia em que os sindicalistas repõem a verdade e sanam todas as injustiças sociais e laborais que assolam o país desde Junho. Cenas lamentáveis na Vimeca, na Renault, à porta da Maternidade Alfredo da Costa, nas instalações da Câmara Municipal de Oeiras, entre outros, quando os eternos e muito democráticos piquetes de greve tentam impedir os seus colegas de exercer o seu direito ao trabalho. Louçã orgulhava-se hoje, nas instalações da Autoeuropa, de que “nenhuma unidade será aqui produzida, naquela que é a maior unidade industrial portuguesa”.

 

São estes os exemplos de democracia e “avanço civilizacional” que estas pessoas transmitem. Este é o país que querem. Este sim, sem garantias, sem direitos, sem nada.

Um homem frontal, polémico e dinâmico

Na véspera da ansiada greve geral, que teve o condão de unir duas das mais jurássicas centrais intersindicais da Europa, Mário Soares decidiu apelar à mobilização do povo de esquerda contra as políticas de austeridade. O mesmo Mário Soares que colocou o país de cócoras perante o FMI já lá vão uns anitos. Mário Soares é assim: um homem frontal, polémico e dinâmico, que muda opinião, posição, ideias e alianças com a facilidade que lhe é recomendada pela conveniência do momento.

 

Patrono da mais importante família da loja do rato, vai movendo influências, minando lideranças dentro do seu próprio partido, garantindo um posto eterno entre as fileiras da referida instituição. João Sousa define-o como ele é, para desencanto de quem gosta de o ver como um velho dinossauro marcado pelas cicatrizes das intensas lutas que travou pela liberdade. Ironia das ironias, no seu manifesto de duas páginas, ou naquele do qual é primeiro subscritor, Mário Soares cita a Igreja Católica. Porque Mário Soares é assim, um homem frontal, polémico e dinâmico…

Os feriados da fernanda

Não sei porque continuo a ler o que fernanda câncio escreve. Não faço ideia se tal desejo parte de um canto obscuro do meu inconsciente ao qual não consigo aceder, de um impulso masoquista explicado de formas variadas pelas diferentes correntes da Psicologia ou se materializa a simples atenção que algo com mau aspecto e manifestamente nefasto habitualmente desperta no comum dos mortais, como um acidente de automóvel na auto-estrada, por exemplo.

 

Nesta prosa, com o título “Ainda mais papistas” adornado pela fotografia da autora a fazer beicinho e com a cabeça ligeiramente inclinada para o lado esquerdo (pois claro!), tomamos contacto com a visão da fernanda acerca da polémica dos feriados. Na sua essência, atira-se aos feriados religiosos com unhas e dentes. Chega a afirmar que o que era bonito era que os católicos, nesses feriados, tivessem apenas licença para acorrer às cerimónias religiosas e voltassem a correr para o trabalho. Não sei como caiu isto na sua família política, constituída por burgueses duvidosos e envergonhados, habituados a receber muito para trabalhar pouco, mas adiante.

 

Indigna-se, também, perante a pretensão de deixar cair o 5 de Outubro, o ideal republicano, a separação Estado/Igreja e todas essas palermices, quando a única coisa que 90% das pessoas sabe acerca desse dia é que é excelente porque, quando está bom tempo, permite fazer umas sandes de coirato, enfiar o farnel no cesto e passar uma alegre tarde de bebedeira no areal da Praia da Torre.

 

E já agora, fernanda, o artigo 208º da Lei 7/2009, habitualmente conhecida como Código do Trabalho, diz respeito ao banco de horas. Os feriados é no artigo 234º da referida Lei. Já não há mais vagas em Paris?

Ah, o cavalheirismo de antanho…

António José Teixeira chamar-lhe-ia, entre duas entrevistas-monólogo na Sic-Notícias, uma velha raposa, enquanto o olhava com ar enlevado. Clara Ferreira Alves, a putativa-romancista, chamar-lhe-ia um velho leão, enquanto saltitava ao seu lado com olhinhos de uma fã do Elvis.

 

Eu prefiro chamar-lhe um velho. Um velho ressentido e com uma excessiva opinião de si próprio. Um velho que se sente injustiçado porque o Mundo não se vem espojar perante a sua enorme grandeza de pensamento. Ressentido com a “dona de casa” (Nicole Fontaine) que teve a veleidade de se lhe opor à presidência do parlamento europeu, cadeira na qual ele já se imaginava, que na sua cabeça lhe estava destinada pelo simples peso do seu… peso. Que diz que a “Europa deixou de ter líderes” – e ele aqui, ignorado, cheio de soluções, agora como no passado. Que diz que a Grécia “foi o berço da nossa civilização” – como se um passado de há séculos justificasse os desmandos actuais (ou Fundações). Que chama Merkel uma senhora “atrevida, uma senhora que vem da Alemanha do Leste e de um país que provocou duas guerras mundiais”.

 

Um velho chato, egocêntrico, deselegante, intimamente misógino, ressentido, pedante, que enche a boca com o “projecto europeu” mas o nega com declarações destas. Declarações às quais, francamente, se devia dar a importância de uma nota de rodapé. Ou do resmungo de um velho num banco de autocarro.

O Canto do Cisne

As palavras tontas de “otolo” saraiva de carvalho chamaram para si mais atenções do que aquelas que o pobre senhor alguma vez poderia ambicionar ter nesta altura da sua vida. Esquecido pelos mais velhos, desconhecido dos mais novos, em desespero de causa, proferiu atoardas que, caso existisse em Portugal um verdadeiro Estado de Direito (o tal que o velho capitão tanto proclama), o levariam, segura e merecidamente, ao banco dos réus.

 

Foram variadas as declarações de repúdio por um claro incitamento à revolta por parte daqueles que devem, ou deviam, ser o primeiro garante da segurança nacional. Nem militares, nem políticos, nem a minha vizinha de 80 anos que tem um canário perderam a oportunidade de, directa ou indirectamente, chamar a otelo aquilo que ele é: parvo. E, já agora, lembrar-lhe que os bons velhos tempos já passaram: hoje em dia, o Campo Pequeno é uma praça de espectáculos, nada mais.

 

É o canto do cisne, o anúncio de que o protagonismo de uma das figuras mais sombrias da história do Portugal contemporâneo está a desvanecer-se. Finalmente, acrescento eu.

Os passos de Passos

Começou hoje a discussão na generalidade do Orçamento de Estado na Assembleia da República. Passos, rodeado de uma equipa jovem e competente, frequentemente acusada de ter falta de experiência política (o que, tendo em consideração o fosso que os nossos políticos experientes escavaram ao longo das últimas décadas, me soa ao mais aberto dos elogios), tem feito o que é preciso fazer. Tirar o Estado de cena enquanto player, liberalizar o mercado, abri-lo ao investimento externo sem obstáculos volumosos e poeirentos, impor ao Estado e, consequentemente, ao País, uma dinâmica de despesa que não ultrapassa o rendimento, são passos essenciais para recolocar Portugal no sítio em que um dia esteve.

 

O actual ajuste, “empobrecimento”, como lhe chamou o PM, é absolutamente indispensável, apenas colhendo de surpresa os incautos dada a Matrix em que temos vivido: os portugueses serão, ainda este ano, o povo da Europa com maior nível de consumo per capita na altura do Natal. Almoços fora todos os dias, jantares fora com regularidade, férias gloriosas todos os anos… nada disso é compatível com uma economia verdadeiramente sustentável. É lamentável que tenhamos vivido inebriados pelo crédito fácil ao longo de tantos anos, alimentados por uma máquina de propaganda de fazer inveja ao Terceiro Reich.

 

A factura chegou!