Arquivo da Categoria: legislativas 2015

Os nossos pequeninos ditadores

calvin_ditador.jpg

O pequenino e nada augusto César dos Açores – sim, o tal que em Julho queria mudar a lei para impedir “detenções sem acusação” – diz que só mostra o acordo com o Bloco de Esquerda depois de António Costa ser indigitado Primeiro-Ministro.

 

Como é que é?

 

Mas esta gente acha-se mesmo dona disto tudo, e com um direito natural ao exercício de poder sem respeitar as regras e sem qualquer escrutínio! António Costa edil quis esconder documentos sobre decisões camarárias porque “abre caminho a que todas as decisões políticas e documentos que as corporizam fiquem sujeitas ao escrutínio público e, eventualmente, judicial, o que irá conduzir, inevitavelmente, à diminuição/perda da autonomia que deve caracterizar o exercício do poder político”. António Costa candidato a primeiro-ministro anunciou que tinha debatido soluções com os “lesados do BES” mas não as ia expor publicamente antes das eleições. O pretendente-a-indigitado António Costa afirma, pela boca do nosso Little Caesar, que pretende ser primeiro-ministro graças a um acordo – que só mostrará depois de ser primeiro-ministro.

 

Isto já não é um caso para o Ministério da Justiça – mas sim para o Ministério da Saúde.

Quadratura do círculo

Costa, honra lhe seja feita, conseguiu múltiplos impossíveis: perdeu uma eleição que estava ganha à partida; pode vir a formar um governo – após fortemente derrotado nas urnas – mercê de uma leitura literal das leis que, até hoje, por cortesia nunca foi feita; e, mais impressionante, coloca o PS à beira do poder e, POR ISSO, transforma-o num autêntico saco de gatos.

Servir no Inferno

A coligação está a fazer o possível – mostrar que António Costa, com Centeno a reboque, vão para a mesa de negociação dispostos a tudo menos à negociação.

 

António Costa foi-nos vendido pela máquina de propaganda socialista – e comunicação social – como o portador da luz que nos iria guiar para fora da noite austeritária. Como o outro “portador da luz”, vemos que também prefere reinar no Inferno.

Estabilidade

Já várias pessoas, em blogues e jornais, referindo-se ao putativo governo de esquerda unida (apesar de cada um desses partidos ter perdido as eleições por larga margem), disseram que o importante é termos estabilidade governativa, em particular no momento de precariedade que ainda se vive. Ora eu contraponho que esse argumento é pernicioso: no limite, leva a defender a ditadura por ser o tipo de regime mais estável; e curiosamente, ao pormenorizar a precariedade como um incentivo maior para a estabilidade, estão a defender – com seriedade – aquilo que Manuela Ferreira Leite disse como piada (e por vós tão vilipendiado foi).

Coerência

Então, vamos a ver se eu percebo.

 

Há anos, a Esquerda rasgava as vestes por Santana Lopes ser nomeado primeiro-ministro pela bancada com maioria parlamentar e cujo programa eleitoral tinha sido o mais votado – com o argumento de que não tinha sido ELE o eleito pelos votantes.

 

Hoje, a mesma Esquerda não vê problemas em formar governo com um primeiro-ministro que SE APRESENTOU a eleições e cujo programa eleitoral NÃO FOI o mais votado. Na verdade, se a Esquerda argumenta que perto de 62% do eleitorado rejeitou o programa eleitoral da coligação, quase 68% rejeitou o do PS – incluindo os eleitores daqueles partidos que se querem agora, muito convenientemente, juntar a ele.

 

Não, coerência – ou falta dela – não é a palavra adequada. Canalhice –  esta é que é a palavra que eu procurava.