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Não pagamos

Recordam-se do bloqueio da Ponte 25 de Abril, nos idos de 90? Eu sim. Recordo-me, por exemplo, de Ferreira do Amaral, então Ministro das Obras Públicas, relativizar o aumento da portagem equivalendo-o a uma bica diária, e logo vir o PS abanar o dedinho e dizer não pagamos, e o Abrunhosa abanar o dedinho e dizer não pagamos, e o amigo Vara a buzinar e a não pagar (como sabemos, Armando Vara prefere que lhe paguem a ele).

 

Avancemos um par de décadas.

 

António Costa apresenta uma “portagem” para Lisboa; constitucionalistas afirmam que isto é inconstitucional por ser um imposto mascarado. O que diz o Mestre em Sociologia Económica (o que quer que isto seja) Fernando Medina, vice de António Costa? Minimiza a taxa, afirmando que equivale a “pouco mais do que uma bica diária”.

Circo

Em Janeiro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, opunha-se ferozmente à lei da Convergência de Pensões proposta pelo governo afirmando-a “ferida de morte” de inconstitucionalidades.

 

Em Novembro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva antecipe as eleições legislativas do próximo ano – apesar de a lei (aprovada em 1999) afirmar, preto no branco, que devem ser marcadas para o período entre 14 de Setembro e 14 de Outubro. Ou seja, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva faça algo – “ferido de morte” de ilegalidades.

 

Se Vieira da Silva, apoiante de Guterres para a Presidência e de António Costa para Primeiro-Ministro, tiver alguma dúvida sobre esta lei, pode pedir esclarecimentos a… António Costa, na altura da aprovação Ministro dos Assuntos Parlamentares e que negociou a lei – ou a António Guterres, na altura Primeiro-Ministro.

 

Tem a sua piada. Em 1999, o PS no governo não se preocupou minimamente com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado. Em 2014, curiosamente, o PS na oposição mostra-se preocupadíssimo com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado.

 

Mais curiosamente ainda, o mesmíssimo PS de António Costa que na oposição se mostra preocupado com os calendários eleitorais poderem dificultar a elaboração do Orçamento de Estado – já está uma semana atrasado na apresentação do orçamento municipal no município onde governa há sete anos, e isto apesar de as eleições respectivas  terem sido no ano passado.

 

Como é que esta gente pode querer ser levada a sério?

Há males que vêm por bem

Há um ano, António Costa dizia que ser presidente da Câmara de Lisboa era incompatível com ser líder do PS. E agora, continua a ser ou, como disse em Julho, “as circunstância mudaram”? (Muito gosta esta gente do PS de justificar as suas piruetas com a “mudança de circunstâncias”).

 

Eu até diria que, se ele sair da Câmara, o país perde de certeza – mas Lisboa talvez ganhe.