Aquivos por Autor: João Sousa

A simbologia

O nosso ministro da Cultura João filho-do-pai Soares considerou, quando foi nomeado, “positiva a existência de um Ministério da Cultura no executivo de António Costa”. Soares disse também que “a Cultura esteve completamente abandonada e numa situação completamente lamentável durante o governo de coligação PSP/CDS”. Deve ser para reforçar o simbólico da Cultura (com C maiúsculo) que o orçamento do Ministério, descontado o dinheiro que a RTP irá sugar, é inferior em 20% ao orçamento da Secretaria de Estado que a havia votado ao abandono.

 

Já agora: serei a única pessoa do país que se sente desconfortável pelo governo ter colocado a comunicação social pública sob a alçada de um Ministério? Ainda por cima um ministério regido por um membro do clã Soares e que faz parte da ala esquerda mais caceteira do partido? E que relação têm a informação pública, o gordo Fernando Mendes, a insuportável Catarina Furtado, o menos gordo José Carlos Malato, o matemático António Perez Metello e o Trio d’Ataque com – Cultura?

A nossa Marie Antoinette

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António Costa, a propósito do aumento de impostos (que ele prometeu não haveria, portanto deve ser uma ilusão de óptica), terá aconselhado os portugueses a “usarem mais transportes públicos, deixarem de fumar e moderarem o recurso ao crédito”. Primeiro: o que diriam os “comentadeiros” do costume se fosse um político de direita a dizer uma coisa destas? Segundo: onde se escondeu o jornalismo que deturpava toda e qualquer declaração de Passos Coelho? Terceiro: irá o governante António Costa dar o exemplo e usar transportes públicos? (Resposta: claro que não, é o contribuinte quem lhe paga o imposto que consome). Quarto: como podem os portugueses usar mais os transportes públicos se, ao reverter as privatizações destes, deixa os passageiros de novo reféns do sindicalismo que se acoitou no sector? Quinto: irá o governante António Costa dar o exemplo e moderar o recurso ao crédito?

 

E já agora, por onde anda o jornalismo que permite a António Costa o descaramento de declarar “que tivemos de fazer cedências, com certeza, ninguém pode fazer uma negociação e chegar a acordo no pressuposto de que são os outros que fazem cedências”? Perante isto, sabendo como sabemos que António Costa não mente nunca (e quando o parece fazer, é a realidade que está errada), só podemos concluir que a sua absoluta intransigência nas “negociações” com a coligação após as eleições significava que ele foi para essas negociações – sem qualquer intenção de negociar. O que, na minha modesta terrinha, se chama – hipocrisia.

TAPar os olhos

Os jornais dizem que o Estado pagou 1.9 milhões de euros para chegar aos 50% de participação na TAP. O que os jornais deviam ter dito era: “Contribuintes portugueses vão pagar 1.9 milhões de euros em impostos para o PS ter sete boys na administração da TAP”.

O Público tornou-se o Luta Popular

O editorial de hoje do Público mostra um jornal que já foi de referência a estatelar-se no chão – e continuar a escavar. Escrito num linguajar que não destoaria na página web do Bloco de Esquerda (ou num blogue de João Galamba), afirma que Bruxelas tem uma “agenda autista” e que os credores, membros da troika, “escrevem uma coisa e fazem outra, como inimputáveis em permanente risco de surto psicótico”. Mas o auge do delírio é o magnífico parágrafo final:

É fundamental que Bruxelas perceba que a vontade dos portugueses conta e que há um antes e um depois de 4 de Outubro de 2015. Um Governo que não faça valer a sua legitimação nas urnas não está só a defraudar os eleitores, mas a contribuir também para a criação de uma caricatura da própria democracia. Mas quem se quer fazer respeitar e ouvir não pode enviar sinais errados. As 35 horas e a reintrodução dos feriados são mesmo prioridades?

O Público quer que “Bruxelas perceba que a vontade dos portugueses conta” – quando o próprio governo que temos resulta de a vontade dos portugueses não ter sido levada em conta. O Público afirma que “Um governo que não faça valer a sua legitimação nas urnas” (está, suponho, a falar do governo de Costa cuja legitimidade resulta de ter sido derrotado nas urnas) “não está só a defraudar os eleitores” (está, suponho, a falar do governo de Costa cuja existência defrauda os eleitores) “mas a contribuir também para a criação de uma caricatura da própria democracia.” (está, suponho, a falar do governo de Costa cuja criação, depois de pesadamente derrotado nas urnas, resulta de uma visão caricatural da democracia).

 

Eu continuo a não compreender a relação que Belmiro de Azevedo tem para com o Público.