Havia há meses uma conta satírica no Twitter chamada Costa, PM. Havia – mas está suspensa. Como não me parece que o Twitter ande a prestar especial atenção a contas que satirizam personalidades públicas deste pequenino rectângulo, só posso concluir que se tratou de uma denúncia (chibanço, delação, queixinha) de alguém ansioso pela “liberdade respeitosa” de outros tempos. Ah, se isto tivesse sido com uma personalidade ligada à Direita, a cinza que já não estaria a ser lançada aos ares…
35 horas? Digam antes 20…
Centeno diz que a aplicação das 35 horas semanais será “gradual” e “sem custos”. António Costa diz que a aplicação das 35 horas semanais será imediata já a partir de Julho. O secretário de estado do orçamento diz que a aplicação das 35 horas semanais será “gradual” e “sem acréscimo de custos”.
Eu nem vou falar da maravilhosa sintonia entre os elementos do governo. Vou apenas confidenciar estar convencido de que as 35 horas semanas já estão sendo aplicadas há muito tempo – dada a dificuldade que tenho em marcar uma mera consulta de rotina no meu Centro de Saúde…
Se…
Ah, se fosse um ministro das finanças de “direita” a dizer, após um orçamento que traz mais imposto, que “quem tem 2000 euros de rendimento bruto está numa situação privilegiada”! Que clamor que iria por essa esquerda e por essas redacções de jornais! Mas como é um inimputável do PS que o diz…
O faz-tudo
Pelo que se está a ver no Twitter, António Costa tornou-se uma espécie de Martha Stewart à portuguesa: tem conselhos para todos os gostos.
Deve ser um erro de DNS
Algo de errado se passa com o meu browser: eu escrevo publico.pt no endereço mas ele insiste em encaminhar-me para o Acção Socialista.
A simbologia
O nosso ministro da Cultura João filho-do-pai Soares considerou, quando foi nomeado, “positiva a existência de um Ministério da Cultura no executivo de António Costa”. Soares disse também que “a Cultura esteve completamente abandonada e numa situação completamente lamentável durante o governo de coligação PSP/CDS”. Deve ser para reforçar o simbólico da Cultura (com C maiúsculo) que o orçamento do Ministério, descontado o dinheiro que a RTP irá sugar, é inferior em 20% ao orçamento da Secretaria de Estado que a havia votado ao abandono.
Já agora: serei a única pessoa do país que se sente desconfortável pelo governo ter colocado a comunicação social pública sob a alçada de um Ministério? Ainda por cima um ministério regido por um membro do clã Soares e que faz parte da ala esquerda mais caceteira do partido? E que relação têm a informação pública, o gordo Fernando Mendes, a insuportável Catarina Furtado, o menos gordo José Carlos Malato, o matemático António Perez Metello e o Trio d’Ataque com – Cultura?
A nossa Marie Antoinette

António Costa, a propósito do aumento de impostos (que ele prometeu não haveria, portanto deve ser uma ilusão de óptica), terá aconselhado os portugueses a “usarem mais transportes públicos, deixarem de fumar e moderarem o recurso ao crédito”. Primeiro: o que diriam os “comentadeiros” do costume se fosse um político de direita a dizer uma coisa destas? Segundo: onde se escondeu o jornalismo que deturpava toda e qualquer declaração de Passos Coelho? Terceiro: irá o governante António Costa dar o exemplo e usar transportes públicos? (Resposta: claro que não, é o contribuinte quem lhe paga o imposto que consome). Quarto: como podem os portugueses usar mais os transportes públicos se, ao reverter as privatizações destes, deixa os passageiros de novo reféns do sindicalismo que se acoitou no sector? Quinto: irá o governante António Costa dar o exemplo e moderar o recurso ao crédito?
E já agora, por onde anda o jornalismo que permite a António Costa o descaramento de declarar “que tivemos de fazer cedências, com certeza, ninguém pode fazer uma negociação e chegar a acordo no pressuposto de que são os outros que fazem cedências”? Perante isto, sabendo como sabemos que António Costa não mente nunca (e quando o parece fazer, é a realidade que está errada), só podemos concluir que a sua absoluta intransigência nas “negociações” com a coligação após as eleições significava que ele foi para essas negociações – sem qualquer intenção de negociar. O que, na minha modesta terrinha, se chama – hipocrisia.
TAPar os olhos
Os jornais dizem que o Estado pagou 1.9 milhões de euros para chegar aos 50% de participação na TAP. O que os jornais deviam ter dito era: “Contribuintes portugueses vão pagar 1.9 milhões de euros em impostos para o PS ter sete boys na administração da TAP”.
O novo tempo
Em Bruxelas, um horrorizado jornalista filmou clandestinamente o pequeno choque com a realidade que as negociações do orçamento representaram para C&C (Costa e Centeno, Centeno e Costa):
O Público tornou-se o Luta Popular
O editorial de hoje do Público mostra um jornal que já foi de referência a estatelar-se no chão – e continuar a escavar. Escrito num linguajar que não destoaria na página web do Bloco de Esquerda (ou num blogue de João Galamba), afirma que Bruxelas tem uma “agenda autista” e que os credores, membros da troika, “escrevem uma coisa e fazem outra, como inimputáveis em permanente risco de surto psicótico”. Mas o auge do delírio é o magnífico parágrafo final:
É fundamental que Bruxelas perceba que a vontade dos portugueses conta e que há um antes e um depois de 4 de Outubro de 2015. Um Governo que não faça valer a sua legitimação nas urnas não está só a defraudar os eleitores, mas a contribuir também para a criação de uma caricatura da própria democracia. Mas quem se quer fazer respeitar e ouvir não pode enviar sinais errados. As 35 horas e a reintrodução dos feriados são mesmo prioridades?
O Público quer que “Bruxelas perceba que a vontade dos portugueses conta” – quando o próprio governo que temos resulta de a vontade dos portugueses não ter sido levada em conta. O Público afirma que “Um governo que não faça valer a sua legitimação nas urnas” (está, suponho, a falar do governo de Costa cuja legitimidade resulta de ter sido derrotado nas urnas) “não está só a defraudar os eleitores” (está, suponho, a falar do governo de Costa cuja existência defrauda os eleitores) “mas a contribuir também para a criação de uma caricatura da própria democracia.” (está, suponho, a falar do governo de Costa cuja criação, depois de pesadamente derrotado nas urnas, resulta de uma visão caricatural da democracia).
Eu continuo a não compreender a relação que Belmiro de Azevedo tem para com o Público.