Trump

Ponto prévio: a personalidade de Trump sempre me despertou toda uma série de reacções desagradáveis e, fosse eu americano, teria votado no candidato que se lhe opunha (no caso, Clinton apesar de também ter imensas reservas sobre ela). Contudo, permito-me dizer que não temos nenhuma legitimidade moral para criticar a escolha dos americanos. Não nos esqueçamos disto: Portugal elegeu duas vezes Sócrates e, mesmo quando ele perdeu, vou votado por quase um terço do eleitorado. Portanto, não me venham cá com a teoria reincidente de que os americanos são estúpidos – como se nós fôssemos um farol de clarividência.

O princípio de Dilbert

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A confirmar-se a eleição de Guterres para o cargo de secretário-geral das Nações Unidas, será uma excelente notícia para Portugal.

 

António Guterres é (devia ser!) uma má memória do nosso passado colectivo. Sucedendo a uma década de profundas transformações no país, Guterres entregou-se a uma invertebrada gestão, abafando com dinheiro dos contribuintes todo e qualquer gérmen de polémica; comprou uma paz-social podre, engordando um monstro deficitário com o único objectivo de entorpecer o eleitorado numa ilusória bolha de bem-estar condenada a, mais cedo ou mais tarde, rebentar (e fugindo cobardemente quando percebeu que tal iria suceder mais cedo do que mais tarde); e “governou” cinicamente, durante quase sete anos, com um olho nas sondagens e o outro no seu gémeo espiritual, esse personagem igualmente enfunado de nome Tony Blair. Não bastasse tudo isto, deixou-nos como herança, além de um país orgulhosamente a caminho da pré-falência, uma pandilha de criaturas inenarráveis que resgatou das catacumbas do Rato e das últimas filas da bancada parlamentar para a ribalta da política nacional: Augusto Santos Silva, Armando Vara, José Sócrates, José Lello, António Costa (este último pescado do bolso de Sampaio), etc…

 

Perante isto, como devem imaginar, estou absolutamente extático com a hipótese de Guterres ir secretariar geralmente a ONU. É um local perfeito para ele, sem sombra de poder real mas com muitas oportunidades para ter microfones à frente. O nosso jornalismo e a nossa opinião exaltaram a ausência de vetos das potências como um reconhecimento unânime das capacidades inatas de Guterres para o cargo. Pela primeira vez de há muito, estou de acordo com ambos: é o reconhecimento da sua capacidade inata de não ser minimamente incómodo e de não passar de um balão verboso. Dúvidas houvesse sobre a importância relativa do posto, bastaria atentar nos potentados de onde saíram os seus antecessores: Coreia do Sul, Egipto, Gana e Peru.

 

Sim, as Nações Unidas são um cargo ideal para António Guterres, o local onde ele poderá, sem prejuízo para a humanidade, fazer aquilo para que é talhado: debitar discursos ocos e aparentar gravidade protocolar. Mas o melhor de tudo, aquilo que me deixa mesmo, mesmo satisfeito, é isto poder garantir, em definitivo, o seu não-regresso à política nacional. Se um Marcelo na presidência já é o que é, imagine-se o que seria um Guterres a suceder-lhe…

Onde é que ela já terá visto tal coisa?

A eurodeputada Marisa Matias (BE) considerou “uma farsa” o ‘diálogo estruturado’ que hoje decorre no Parlamento Europeu sobre a possível suspensão de fundos estruturais a Portugal e Espanha porque a Comissão Europeia já tem a decisão tomada.

Eu também considerei “uma farsa” o suposto “diálogo estruturado” que, há um ano, Costa manteve com os vencedores das legislativas sobre uma possível solução governativa a três – porque Costa, claramente, já tinha a sua decisão tomada.

A nova máquina de spin do Governo

Não fosse irmos pagar pesadamente toda esta farsa governativa, eu sentir-me-ia tentado a aplaudir Costa pelo que sucedeu há três dias: o PCP veio a público congratular-se e garantir o controlo da execução orçamental. Ou seja: Costa conseguiu tornar o PCP na sua máquina de spin, juntando António Filipe ao esganiçado Galamba na defesa daquilo que não passa de uma burla.

Há que ler sempre as letras pequeninas

público de 18/08/2016

Faz hoje uma semana, o Público bradou, com voz grossa e indignada, que PSD e CDS pagaram, entre os dois, 475 mil euros a um especialista em comunicação política para a campanha das últimas legislativas. Logo a seguir, o Público surrurrou timidamente, decerto para não acordar o menino que dormia, que o PS pagou 751 mil euros (58% mais) a um militante para lhe decorar as salas de campanha.

 

Pergunto hoje o que já perguntei mil vezes antes: para que sustenta a Sonae esta triste sombra de jornalismo?

Pobres e mal-agradecidos

Tão cíclico como as marés, levantam-se vozes contra o turismo que “descaracteriza” Lisboa e a “rouba aos lisboetas” – como se houvesse assim tantos lisboetas para serem roubados ou tanta Lisboa para roubar. São, em grande parte, vozes da Esquerda (que, quando lhe convém, se mostra muito ciosa da tradição), mas uma parte não negligenciável ouve-se da Direita – provando que a idiotice pode ser transversal à doutrina.

 

Estas vozes da Esquerda preocupam-se com o turismo que “empata” a vida dos lisboetas. Curiosamente, nunca ouvi tais vozes preocupadas com as sucessivas greves do Metro que agora se metamorfosearam em “perturbações de circulação” diárias – e que, por coincidência extraordinária, só se vulgarizaram na época alta do turismo. Não: estas “perturbações de circulação” não “empatam a vida” dos lisboetas.

 

De igual forma, não me recordo de ouvir preocupação nestas vozes da Esquerda pelas obras que constantemente esventram a cidade, interrompem ou desviam o trânsito e enchem, no calor do Verão, o ar de poeiras e cheiros. Não: parece que este frenesim camarário de mostrar obra em antevéspera de eleições não “perturba a vida” dos lisboetas.

 

Tal como nunca ouvi um tremor de ansiedade nestas vozes de Esquerda pelas árvores retiradas para serem substituídas por folclóricas ciclovias com menos uso do que o aeroporto de Beja, ou pelas fachadas de edifícios que se incentiva cobrir de graffitis de estética duvidosa para disfarçar a sua decadência: isto não é nunca, para estas vozes, “desvirtuar a cidade”.

 

Nada disto é, parece, perturbador para a nossa vida. Aquilo que realmente empata são os turistas ingleses, franceses, alemães, italianos e etc. que deixam cá o seu dinheiro – e graças ao qual a tragédia da geringonça é levemente maquilhada. Talvez estas doces vozes preferissem que aqueles países se limitassem, simplesmente, a enviar-nos o dinheiro sem qualquer contrapartida – a bem desse conceito tão querido à nossa Esquerda chamado “solidariedade europeia” e que se traduz por partilhar deveres e direitos deste modo: nós ficamos com os direitos e eles com os deveres.

Também eu…

Catarina Martins, num dos mais espectaculares exercícios de hipocrisia de que me recordo, afirma-se diariamente “arrependida da criação da geringonça“. Também eu, todos os dias, me arrependo da criação desta geringonça (des)governativa. A diferença é que eu não tenho responsabilidade nenhuma no facto e irei pagá-lo com a carteira, enquanto Catarina Martins não só foi aríete da sua criação, como surge nos intervalos do arrependimento a defender o governo com ainda mais empenho do que o próprio.

 

Esta senhora pode ter sido uma actriz medíocre – mas demonstra tudo o que é necessário para uma carreira política de sucesso.