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Hipocrisia

Seguro afirmou-se chocado com as afirmações de Passos sobre os docentes desempregados. Como não as tivesse visto, ouvido ou lido, fui procurar a causa de tanto reboliço. Aparentemente, quando questionado sobre os professores excedentários (excedentário, adjectivo, que excede uma quantidade necessária), Passos terá dito que estes tinham duas soluções:

 

“estar disponível para outras áreas ou, querendo manter-se sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado da língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa”.

 

Seguro está chocado. Eu acompanho-o. Mais do que isso: as narinas fremem-me de indignação. Um primeiro-ministro a dizer as coisas como elas são? A não dourar a pílula? Que insensatez se seguirá, um primeiro-ministro que não minta?

 

A tribo dos opinion-makers também está delirante, saltam à cachalote. Que um PM não deve dizer isto, mesmo sendo verdade – deve antes transmitir optimismo. Que em política, se deve gerir a comunicação e nem sempre “a verdade é boa conselheira”. Que exercício de hipocrisia, para mais partindo das mesmas gentes que criticariam Passos Coelho por ter um discurso “contrário à realidade” se seguisse o caminho oposto.

 

Sim, senhores opinadores, vê-se o excelente resultado que deu o supremo gestor de comunicação que antecedeu Passos Coelho, o político cujo comportamento fazia crer que a verdade, mais do que nem sempre ser “boa conselheira”, era um conceito blasfemo.

Pequeno-almoço

Figo diz-se desiludido com Sócrates. Estou cheio de peninha.

 

Mas o mais interessante é isto:

 

“Hoje ninguém acredita nos políticos, há uma descredibilização total, aqui, em Espanha ou em Itália, é igual. Não me venham dizer que há uma crise financeira, uma crise mundial. Há é políticos que gastam mais do que há para gastar.”

 

“Há é políticos que gastam mais do que há para gastar”. Há um par de anos, estranhamente, não o vi preocupado com o preço daquele famoso pequeno-almoço que deglutiu com Sócrates…

O Pepe-Rápido

Finalmente, Seguro falou. Mais valia não:

 

“Quero lançar desde Viseu um desafio ao primeiro-ministro: [no domingo] tem uma boa oportunidade para dar uma boa notícia aos portugueses. O Conselho de Ministros vai reunir-se extraordinariamente e eu desafio o primeiro-ministro a que finalmente ponha fim à austeridade e que tome medidas concretas para o crescimento económico e para o emprego no país.”

 

Seguro quer o fim da austeridade – quando ela praticamente ainda está no início.

 

Mas não: afinal, “é necessária austeridade para consolidar as contas públicas” mas “não tanta”.

 

Se tento seguir as piruetas de Seguro, ainda tenho uma luxação ocular.

Indecisão

O Combate de Blogs, programa relativamente simpático que eu observo com assiduidade na TVI24, publicou as suas nomeações para os melhores blogs de 2011. Nomeados na categoria Blog De Esquerda, estão o Jugular e o Câmara Corporativa. Parece-me sintomático que estes dois façam parte daquilo que é considerado o melhor da blogosfera de Esquerda. Só ainda não consegui decidir se é um sintoma do triste estado da Esquerda na blogosfera – ou se é simplesmente um sintoma do triste estado da Esquerda.

24 anos não é coisa de crianças, já é maioridade

Nesta notícia, aquilo que mais me chama a atenção é o seguinte parágrafo:

 

Assim, Portugal vai demorar 24 anos (até 2036) a reduzir um excesso de dívida que criou em seis anos, visto que em 2004, o rácio da dívida era de 57% do PIB.

 

Ideia de crianças, dizia o outro? Vejamos a coisa por este prisma: uma criança que nasça hoje terá 24 anos quando a dívida estiver ao nível de antes de Sócrates (há seis anos).

Tem dado bom resultado

Li algures, nem sei já em que jornal, que o Governo estaria a estudar o cenário de dissolução do Euro, mesmo que como simples hipótese académica. Imediatamente vi críticas toscas de gente situada à esquerda, gente que talvez nunca tenha sequer gostado da moeda e censura cegamente Passos Coelho (o representante actual da sua tão odiada “Direita” cujas consoantes lançam explosivamente como veneno) por qualquer opção que tome – até a farmácia onde ele compra aspirinas.

 

Mas se o Governo está, de facto, a fazer isto, eu também acho mal. Contemplar cenários alternativos, planear com antecedência? Isso é para alemães e suíços, essa gente chata e sem interesse. Permaneçamos fiéis ao nosso simpático e típico chinfrim – que tão bons resultados nos tem dado no passado.

Foi para isto?

Os meus anos de ensino primário, passei-os eu numa sala já velha de décadas, onde também a minha mãe havia estudado, e até tive o privilégio de ter a mesma (excelente) professora que ela. A escola era um único edifício, como já disse velho de décadas, casas-de-banho antiquadas e uma larga escadaria interior que levava à nossa sala do primeiro piso. Nunca tivemos de interromper uma aula que fosse por chuva, vento, calor – nada.

 

O ensino preparatório, passei-o numa escola também com décadas, onde também a minha mãe estudara. Houve uma expansão de um ano para o outro, até para acompanhar a explosão demográfica que se ia registando na zona. Como todas as expansões de então com restrições temporais, foi baseada em pré-fabricados. Mas nunca – nunca! – tivemos chuva numa sala.

 

Os 7º ao 9º anos, fi-los na escola adjacente, também com décadas de existência, também já frequentada pela minha mãe e onde ainda se mantinham alguns dos funcionários que a conheceram. Tal como na escola anterior, vinha sendo ampliada com pré-fabricados até que, no meu 9º ano, estes foram substituídos por um edifício novo. Nunca choveu ou vi qualquer sinal de decrepitude nas suas paredes.

 

Nos 3 anos finais de escolaridade, frequentei uma escola em Almada, construída se não estou em erro na década de 50 ou 60, onde ambos os meus pais já tinham estudado. Era um edifício enorme, com tectos altos e largos corredores. Quase colados à estrutura, situavam-se dois ou três pequenos pré-fabricados castanhos que funcionavam como salas extra. E não, nunca choveu em qualquer das nossas salas, nem no ginásio, nem em nenhum local que eu visse.

 

Não possuíamos salas de convívio com mesas de snooker e plasmas sintonizados na MTV, nem wifis para os portáteis e smartphones, nem projectores e ecrãs interactivos nas salas, nem todos estes “avanços civilizacionais” que se dão hoje por garantidos. As bibliotecas eram salas pequenas – mas que até os mais rebeldes frequentavam com interesse – e, com sorte, havia algures uma ou duas decrépitas mesas de matraquilhos. E no entanto, neste nosso novo Portugal, neste Portugal moderninho e avançado, uma escola mete água após obras de 8,6 milhões de euros.

 

Eu vou escrever o número por extenso: 8.600.000,00€ correspondem a quase dois milhões de contos. Chove nas salas. Chove no ginásio. Os azulejos descascam. Baldes tentam conter as fugas. Isto é toda uma metáfora do país que nos foi deixado pelo louco neo-filósofo: com ares de limpinho e moderninho, na realidade a desfazer-se como um castelo de cartas.