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Desculpado? Longe disso.

Domingues de Azevedo – sem relação com o castiço Pinheiro de Azevedo ou o digno Anthímio Azevedo – foi entrevistado pelo jornal I. A entrevista é um longo exercício de língua de pau, entediante para o leitor com hábitos de higiene. O sentido(-único) do pensamento(?) azevediano está em exibição logo na primeira resposta, que dá o título à peça:

 

Muitos portugueses já pensam “Sócrates volta, estás desculpado.”

 

O jornal apresenta-o como Bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas. Não tenho problemas com isso, afinal ele é-o. Mas quando a entrevista se torna um longo libelo anti-Governo e desculpabilizador de Sócrates, penso que seria mais adequado se o jornal o apresentasse como Bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas E deputado do PS entre 1983 e 1995. Dado o teor das suas declarações, este segundo detalhe na sua biografia não me parece despiciendo.

 

Pergunto-me o que pensarão advogados e TOCs de elegerem bastonários que, quando em público, parecem tão ou mais preocupados em defender Sócrates do que em falar sobre a sua classe profissional.

Ainda as oportunidades

Particularmente desonesto na falácia de Fernando Medina é que o fecho destes 20 centros de Novas Oportunidades não tem a ver com opções políticas. Catorze vão fechar por não terem cumprido “metas contratualizadas”: pelos vistos, este PS continua a achar que “honrar compromissos” é um conceito anacrónico – ou talvez uma ideia de crianças. Os restantes seis vão fechar a pedido dos próprios promotores.

 

Fernando Medina diz que “há estudos que indicam que se Portugal tivesse o nível de qualificação dos países mais avançados o PIB potencial seria cerca de dois pontos superior ao actual (…) É por isso que o prosseguimento com êxito da iniciativa Novas Oportunidades é tão importante para todos nós”. Medina continua a querer confundir qualificação com certificação. A maioria das Novas Oportunidades entregava certificações – mas não qualificava. Mas o que importa isto a um fiel de quem se certificou a um Domingo?

O livro de estilo

Isto é o perfeito exemplo de uma não-notícia:

 

Coreia do Norte não vai mudar de política com o seu novo líder.

 

Houve alguém que teve sequer a mais leve expectativa do contrário?

 

Mas pelo menos percebemos, para lá de qualquer dúvida, onde vai o jornal Avante buscar o seu livro de estilo. Atentemos nos seguintes nacos de prosa:

 

Declaramos solenemente e de forma confiante que os políticos estúpidos de todo o mundo, incluindo o grupo fantoche na Coreia do Sul, não deverão esperar qualquer mudança política da nossa parte.

 

(…) recusaremos sempre relacionarmo-nos com o traidor Lee Myung-Bak e o seu grupo.

 

O mesmo azedume, a mesma truculência. 

Prémio cara-de-pau 2011

Ordem propõe expulsão de psiquiatra que fez sexo com doente deprimida e grávida.

Qual a argumentação apresentada por dois desembargadores (um dos quais mulher) para absolver o psiquiatra? “(…) o facto de ele ter agarrado a cabeça da doente e lhe ter introduzido o pénis na boca e, de seguida, a ter empurrado para o sofá, onde concretizou sexo vaginal, não constituiu violência suficiente para enquadrar o crime de violação previsto no Código Penal”. Repito: dois juízes, um dos quais mulher, consideram que um psiquiatra agarrar na cabeça de uma doente, introduzir-lhe o pénis na boca, empurrá-la para um sofá e concretizar sexo vaginal (isto tudo, entende-se, sem o consentimento dela), não é suficiente para ser considerado violação. Nem é dar-se o caso de a acusação não ter sido provada, pois ele foi inicialmente condenado por estes factos: é ser “insuficiente”.

Chamem-me antiquado, se quiserem, mas eu pensava cá na minha que sexo, quando não consentido, deixava de ser sexo e passava a ser outra coisa – violação. Dois senhores juízes, um dos quais mulher, entenderam uma qualquer interpretação literal da Lei que lhes deu uma terceira alternativa. Acharam uma espécie de limbo das relações sexuais, algo que não é consentido mas não chega a ser violação. É abjecto. E se existe uma Lei que, por mal escrita ou pensada, dá azo a ser interpretada com esta literalidade, também é abjecto que não tenha sido imediatamente corrigida.

E qual a argumentação apresentada por este psiquiatra? Que lhe efectuou uma “palpação mamária” e houve alguma “envolvência emocional”, que foi um processo “com alguma ternura, com alguma excitação”. Isto merece uma nomeação para o prémio Cara-de-Pau 2011.

No meio disto tudo, parece-me um curioso comic-relief que o único desembargador a colocar-se do lado da doente seja alguém chamado Papão.

O anti-Nostradamus

Vítor Constâncio falou lá do seu exílio dourado. E disse o quê?

 

“Não vemos isso [o colapso da zona Euro] como um risco que devemos considerar.”

 

Ou seja, o Euro está condenado.

 

“A dinâmica de um acontecimento desta dimensão não pode ser previsto.”

 

Sim, nós sabemos perfeitamente da tendência de Vítor Constâncio para não prever acontecimentos. Foi assim com o défice socrático, foi assim com o BCP, foi assim com o BPN… A única coisa que me recordo de ser “prevista” por Constâncio foi o défice de Santana Lopes – e esse, acredito que só por alguém lhe colocar um papel à frente do nariz com aquilo que “devia ser encontrado”.