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Não foi para isto

Eu gostava de dedicar algum do meu tempo a estas recentes declarações de Sócrates e às reacções dos seus apaniguados. Sempre tive curiosidade pelas manifestações de irracionalidade que, persistentemente, contrariam o título de “único animal racional” com que a nossa espécie se arroga.

 

Mas não o consigo fazer. Só consigo escrever um par de parágrafos apressados. As gentes em questão não merecem muito mais da minha atenção.

 

Sócrates disse, ou a sua claque quer dar a entender que o disse, que a dívida de um país é eterna – o que deve é ser contida dentro de limites razoáveis. Aquilo que critico não é a legitimidade desta teoria: acho-a defensável (dentro de limites). O que eu critico é ele argumentar com algo que o próprio, premeditadamente, não cumpriu: “dentro de limites razoáveis”. Critico também que ele dê a entender que, em algum momento, alguém agora no poder tenha afirmado que o país devia pagar a totalidade da sua dívida com um cheque. Isto tem nomes: hipocrisia, desplante, desonestidade.

 

Sócrates comportou-se criminosamente, endividando sempre mais o Estado para a sua preservação no Poder (aumento absurdo dos funcionários públicos antes das legislativas) e para sustentar projectos de viabilidade questionável e legitimidade duvidosa. Sócrates tentou levar por diante a expressão irresponsável: “se devemos cem mil euros a um banco e não podemos pagar, estamos em apuros; se devemos dez milhões de euros a um banco e não podemos pagar, o banco está em apuros”. No regabofe de velhacarias que se mostrou o seu consulado, Sócrates considerou a dívida uma coisa eterna, sim – e fê-la tender para infinito.

 

E ver a bloga socrática defendê-lo, apesar de tudo o que se passou e foi feito, tem tanto de fascinante como repulsivo – um pouco como quando eu, na minha infância, observava com fascínio os cadáveres de animais atropelados serem gradualmente consumidos pelas formigas e escaravelhos. Ver os jugulares, os corporativos, os valupis, as isabeis moreiras e os anónimos desta blogosfera defender um louco irresponsável com o grau de abnegação com que o fazem, é para mim um exercício de pura incompreensão. É ver de novo mulheres escreverem declarações de amor a Ted Bundy; é ver de novo hordas de fanáticos predisporem-se ao sacrifício ou à perpetração de atrocidades em nome de um ditador.

 

Reparem neste dislate já antigo do Valupi:

 

“[Augusto] Santos Silva esmagador é a norma. Ele tem as informações, a boa-fé e a literacia.”

 

Ou nesta idiotice, lida recentemente nos comentários do AspirinaB:

 

“Ouvir Sócrates em mais um exercício de inteligência, honestidade intelectual e elementar sensatez foi um gosto.”

 

Galamba, Isabel Moreira, f, Lello, Augusto Santos Silva, Vitalino Canas e anónimos da blogosfera que defendem o indefensável, justificam o injustificável: quem são estas gentes? Idiotas? Tão loucos como aquele que defendem? Desprovidos de auto-estima que se dispõem a estas figuras tristes, como um cachorro patético que abana a cauda deliciado com uma atenção distraída do dono?

 

Ou, pelo contrário, serão tão igualmente egocêntricos, incendiários que vão observar os fogos que ateiam, que colocam o seu ego acima de tudo, até do país onde nasceram, cresceram e vivem, e preferem como Lúcifer “reinar no Inferno a servir no Paraíso”?

Um PS partido

O PS, aquele partido que ocupa uma faustosa sede no Largo do Rato em Lisboa, está partido.

 

De um lado, uma ala com um líder que virou subterrâneo, exilado até, mas cuja influência se faz claramente sentir. É esse líder que têm em comum seres como silva pereira, josé lello e ricardo rodrigues, entre outras destacadas figuras do plantel do PS de sócrates. Afirmam estes que o PS deve votar contra o OE de 2012 pois um voto de sentido oposto seria a admissão de responsabilidade rosa no buraco financeiro por onde se vai escoando o País. Para estas sumidades, é perfeitamente lógico que os que governaram o rectângulo nos últimos 6 anos não têm qualquer responsabilidade pelo estado a que o Estado chegou. Deliciosas idiossincrasias.

 

Do outro lado, uma ala que não tem líder, apesar de ter eleito um. Seguro, cujo momento alto da liderança foi, até agora, “roubar” uma entrevista em directo a antónio costa, consegue o pleno da inutilidade: não une o partido, não faz uma proposta palpável, não assume uma posição clara em relação às decisões estratégicas nacionais. Nada! Veio, ontem, afirmar que o OE tem uma folga de 1.000 milhões de euros que devia ser, desde já, “torrada”. São assim, estes socialistas que temos, dinheiro a mais no Estado é para derreter, a bem ou a mal.