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A queda

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O geriátrico Soares foi ontem visitar o amigo e “bom homem” Sócrates à prisão. De cabeça perdida à saída, pois vergonha ou moral nunca teve para perder, disparou em todas as direcções.

 

O que afligia Soares? Ver um amigo, bom homem e impecável primeiro-ministro, vítima de um auto-de-fé? Sentir a sombra negra do fascismo abater-se de novo sobre a sua tão amada pátria, com prisões na calada da noite? Ver esse pilar da ética republicana chamado Partido Socialista sob uma perseguição política? Acordar de manhã e ver que já não tem fraldas na despensa?

 

Não. O velho Soares está desesperado (pois foi medo aquilo que lhe pressenti ontem) porque vê Ricardo Salgado, Maria de Lurdes Rodrigues, Armando Vara, Isaltino, Sócrates a braços com a justiça. Soares pressente o final da impunidade de que gozava toda uma mole de “bons rapazes e raparigas” que se serviam do Poder e da sua proximidade como se fossem Donos Disto Tudo. Soares receia que, finalmente, ele próprio veja a sua imunidade soárica revogada. E imagino que, algures nas catacumbas da sua fundação manhosa, filas e filas de máquinas trituradoras estejam a reencenar aquilo que foram os últimos dias da Stasi por alturas da queda do Muro.

Quem se mete com os nossos, leva!

A RTP (o tal canal de televisão que está controlado pelo Governo) foi ouvir o velho Soares, esse grande economista, a propósito do BES. Nunca vi a RTP pedir a opinião do palhaço Batatinha sobre a política integracionista de Putin. 

 

Primeiro, acho queriducha a constante simpatia que as gentes do PS, um partido supostamente de esquerda, têm para com os bancos e o grande capital.

 

Segundo, parece óbvio que os banqueiros, certamente mal habituados pelo constante desvelo maternal com que o PS olha para as suas diabruras, encaram o dinheiro dos contribuintes como uma solução para os buracos cavados pelas suas vigarices.

 

Terceiro, ao contrário do que o jurássico Soares afirma, não foi o Governo a atirar o BES para o charco. O BES foi parar ao charco (ou melhor, às areias movediças, pois quanto mais se mexe mais se enterra) graças às “liberdades criativas” de uns cavalheiros que o dirigiam.

 

Quarto, a ameaça de “Quando Ricardo Salgado falar, e vai falar, as coisas vão ficar de outra maneira”. Na essência, o decano Soares está a dizer que quem se mete com Ricardo Salgado, leva – tal como Jorge Coelho dizia que “quem se mete com o PS, leva”. Aliás, acho que o PS poderia generalizar: quem se mete com os nossos, leva.

 

Acontece que eu quero que Ricardo Salgado fale. Eu quero que Salgado fale tudo – mas é mesmo tudo, não um “tudo” seleccionado para conveniência de alguns. Tenho a certeza de que haveria muitos nomes conhecidos nessa lista, a começar por alguns que contribuíram para o regresso da família a Portugal.

 

Quando foi o BPN, o governo de então achou por bem queimar dinheiro do contribuinte de forma a deixar toda a gente satisfeita: banqueiros e futebolistas que tomam pequenos-almoços. A coisa não correu bem. Agora, o Governo adoptou estratégia diversa: não acorrer com pazadas de dinheiro do contribuinte para tapar os buracos abertos por um burlão bem relacionado. Até pode acontecer que a coisa corra igualmente mal – mas é uma diferença de postura interessante.

O livro do apocalipse

 

Agora (mais) a sério: Soares perpetrou nova ofensa em forma de livro. Desta vez, fala de mudanças climáticas. O velho Soares invoca nevões, furacões e outros fenómenos extremos, afirmando resultarem da globalização e da actuação de alguns que “só querem ganhar dinheiro” (curiosa censura, vinda de quem vem).

 

A apresentação do livro, essa, foi um mero pretexto para exibir o seu corso de vaidade. Soares vestiu-se de cravo na lapela e arrastou a corte que o segue habitualmente: mulher, filhos, netos, Almeida Santos, Edite Estrela, Lidia Jorge, Seixas da Costa, Carlos Monjardino… só não vi referência ao bobo sobrinho-do-tio Alfredo Barroso – mas imagino que alguém terá que ficar na Fundação para apagar as luzes. Aquela repugnante plateia era um dos mais completos retratos da fauna que construiu a carreira dobrando o joelho perante este nosso rei bobeche. 

 

De tudo o que foi dito pelo idoso Soares, o mais espantoso foi: que sempre fez “o culto da amizade” e nem todos os amigos o trataram bem. Salgado Zenha, Manuel Alegre e Rui Mateus teriam e terão muito a dizer sobre isto. Soares cultiva amizades, sim – para derrubar quando perdem utilidade para a sua augusta pessoa, se recusam a ficar com a responsabilidade das suas pulhices, ou manifestam a mínima oposição à sua imensurável ambição.

CNE

Cada vez mais a CNE se está a tornar uma espécie de ASAE das eleições.

 

A bem de uma suposta igualdade de tratamento, conseguiu que as televisões não cobrissem a campanha; aplica multas ao Facebook por causa da publicidade paga; e diz que vai manter as redes sociais sob o seu olhar de lince, para garantir o escrupuloso cumprimento do dia de reflexão. A CNE dá a impressão de se querer lançar, com fúria militar, sobre um qualquer anónimo que, no Domingo, diga ao seu grupo de “amigos” que é preciso ir votar para “derrotar o fascismo”. Se assim for, é consistente: em 2011, enviou ao Ministério Público uma queixa contra Garcia Pereira por umas declarações que este terá proferido depois de votar.

 

Já em 2009, quando o velho Soares apelou, explicitamente e em directo e diferido, ao voto no seu filho para a Câmara de Sintra, a CNE afirmou que “este crime pode ser punido com uma pena de prisão até seis meses ou uma multa até 60 dias”. Percorri meio Google à procura de uma notícia sobre a multa que o decano Soares (pelos vistos não) pagou, ou um qualquer título sobre o processo que a CNE (pelos vistos não) moveu contra ele. Tanto quando consegui descobrir, à ilegalidade reincidente do dinossauro Soares, a CNE respondeu – fazendo beicinho.

Por qué no te callan? [3]

E a boca lá lhe fugiu para a verdade.

 

O ancestral Soares, em mais uma intervenção pública da nova brigada dos reumáticos (em Salão Nobre, claro, pois os seus cansados arcaboiços já não se dão bem com o buliço da populaça), diz que é preciso derrubar este governo – não há mais nada a fazer:

 

À questão ‘e agora?’, Mário Soares retorquiu: “Agora é preciso derrubar este Governo, a resposta é muito simples. Estou a falar muitíssimo a sério. Não há mais nada a fazer.

 

Gosto desta ideia: o antepassado Soares, invocado por tanta gente como “o pai da nossa democracia”, quer deitar abaixo um governo legitimamente eleito e que, daqui a uns tempos, será sujeito a eleições, com o argumento de que “Eles fingem que são democratas mas querem um 25 de Abril a fingir”.

 

O velho Soares também diz que, por causa deste governo, já não temos SNS, estado social nem direitos do homem. Direitos do Homem! Soares não faz por menos.

 

Por isto é que digo que a boca lhe fugiu para a verdade. O senecto Soares rematou dizendo que “É indispensável acabar com este regime o mais depressa possível”. Como se pode ver, o nosso regime não é do agrado de Soares – é demasiado democrata.

Leite e mel

Se António José Seguro, que se pendurou em Hollande como o emplastro, tivesse um vestígio de vergonha na cara, estaria neste momento a cavar um buraco para se fechar nele durante um par de anos. A França, epicentro dos tais ventos de mudança anunciados pelo velho Soares desde a eleição de Hollande, o homem-providencial que iria colocar a sra. Merkel na ordem e transportar-nos para um futuro de leite e mel, afastados da austeridade e a crescer com a fúria de um feijoeiro, prepara-se para… congelar salários, pensões e fazer múltiplos cortes nas despesas sociais.

 

Na verdade, o único leite e mel que Hollande trouxe – terá sido para o seu pequeno-almoço nas casas das amantes.