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Por Qué No Te Callas [7]

Soares já com olhar vago

Soares anda no paraíso. Os jornalistas acorreram a colocar-lhe o microfone à sua frente e, como um velho comediante decadente sempre pronto a mais uma pilhéria, Soares não nos desiludiu: diagnostica o Governo como estando moribundo e quer que Cavaco Silva nomeie um governo sem recurso a eleições antecipadas. Estas últimas são curiosas palavras vindas de quem sempre tem afirmado que o voto popular é soberano.

 

A verdade é que não vou censurar a performance do velho Soares. Soares é como é e como sempre foi; há coisas que são como são, está na sua natureza. Esperar que o jurássico Mário Soares não seja um canalha é tão irrealista como esperar que uma vaca se torne, de súbito, caçadora.

 

Não; o que coloco em análise é a quase inexistência do nosso jornalismo. E apresento apenas dois (de vários possíveis) argumentos.

 

Primeiro, cada vez mais as notícias são meras retransmissões da mesma fonte. Isso é particularmente óbvio na presença online dos jornais: é um título chamativo para caçar cliques e subir no ranking da Google; é a colocação de uma história sem qualquer confirmação da mesma; é a mera colagem de um texto que já veio preparado de algures.

 

Neste caso, é evidente. Público, I, Sol, Expresso (e certamente mais alguns, mas não tive tempo para ser exaustivo), todos eles transcreveram online a mesma história mastigada pela Lusa – ipsis verbis:

 

Sol: Mário Soares quer substituição de Governo ‘moribundo’ sem eleições antecipadas

 

Expresso: Mário Soares diz que Governo está “moribundo” e deve demitir-se

 

I Online: Mário Soares sugere nomeação de novo governo sem recurso a eleições antecipadas

 

Público: Soares diz que Governo está “moribundo” e deve ser substituído

 

Segundo, já quase não há jornalistas. Atente-se nesta notícia: Soares diz o que bem entende, como o entende dizer e sem qualquer contraditório. Soares, ao invés de ser interrogado, deixa ele perguntas aos jornalistas. Parece que ninguém nas redacções ensina a estes novos “jornalistas” que o seu papel, quando se justifica, é escrutinar o que lhes é dito; é pedir explicações sobre as contradições de quem está à sua frente; é ter a coragem de não se deixar amedrontar ou impressionar com o entrevistado.

 

Estes jornalistas, quiçá uns miúdos estagiários que tentam ganhar uns trocos, olham para o senescente Soares com o temor reverencial que é inspirado por um enorme celacanto falante – e bloqueiam. Ou talvez, simplesmente, não possuam qualquer conhecimento da História recente.

 

Como, pergunto eu, como é possível que um qualquer jornalista que se ache merecedor de tal título tenha ouvido de Soares, como justificação para a substituição do Governo:

 

“A crise está instalada. Querem maior crise do que o país a gritar ‘vão-se embora’ e a chamar ‘gatunos’ aos membros do Governo? Foi o que aconteceu no sábado”

 

sem lhe perguntar imediatamente:

 

Mas então, em que é que isto é diferente de 83-85, era o senhor Primeiro-Ministro, o FMI estava cá, as manifestações sucediam-se, as greves seguiam em fila indiana, o povo pichava nas paredes “Governo Soares/Mota Pinto rua!” e “FMI fora de Portugal” – e o senhor permaneceu no poder sem sentir a sua legitimidade minimamente beliscada?

A presunção de inocência – por medida

A ERC votou o caso Relvas como eu já esperava: os nomeados pelo PS queriam-no punir e os nomeados do PSD queriam-no ilibar. Dá vontade de perguntar o porquê de a ERC existir. Podia ser substituída com economia de meios por uma calculadora.

 

Entretanto, o Público fala no assunto… Público. Acho sempre interessante quando um jornal é notícia de si próprio. Bárbara Reis, directora, diz que

 

“(…) a ERC dá por provado apenas aquilo onde existe uma coincidência entre as partes. Em tudo o que não há rigorosa coincidência, a ERC dá por não-provado. Ora, isto não faz sentido pois é aí que está, justamente, o âmago da questão – houve ou não pressões inaceitáveis do ministro Miguel Relvas sobre o PÚBLICO? Mantemos que sim, como de resto desde o primeiro momento.”

 

Traduzindo por miúdos, a directora do Público diz que a ERC dá razão ao jornal em tudo o que foi possível apurar como prova; quando houve conflito de versões, e não sendo possível apurar para lá de qualquer dúvida o que aconteceu na realidade, a ERC optou por ilibar o acusado; e a directora Bárbara Reis achou mal.

 

Ora eu, vá lá saber-se porquê, sempre achei interessante como a “presunção de inocência” é considerada um valor civilizacional ou um empecilho – conforme os seus recipientes. No caso Relvas, a directora Bárbara Reis pretendia isto: há conflito de versões, é a palavra de um contra a palavra de outro, não é possível obter provas, logo a ERC devia acreditar piamente em si e considerar Relvas um supino mentiroso, logo Relvas é culpado. Porque os jornalistas de política são seres impolutos e a sua palavra deve ser considerada letra de lei.

 

Um dos meus problemas com um certo tipo de jornalista é que, intimamente, todos querem o seu Watergatezinho pessoal.

De como uma homenagem se torna num beija-mão dos homenageados ao homenageador

No passado Sábado, a Presidência da República promoveu um almoço na Fundação Champalimaud para, como se pode ler no site, honrar “personalidades que se distinguiram em Portugal e no Estrangeiro no âmbito das suas actividades profissionais“.

 

A SP Televisão, que produziu uma novela premiada em 2011 com um Emmy, foi um dos convidados, e enviou uma comitiva da qual faziam parte os três protagonistas.

 

Esta notícia é-nos apresentada pela jornalista Márcia Gurgel, repórter da secção Pessoas do DN/JN e que pode ser lida, no seu eclectismo, a reportar matéria tão diversa como o namoro de Paco Bandeira, as ambições familiares de Ricky Martin ou as viagens de Verão do ex-ministro dos corninhos Manuel Pinho.

 

Porque, então, menciono eu esta notícia sobre o almoço da Presidência? Simplesmente por isto: a grande-repórter Márcia Gurgel, habitualmente inócua na insipidez do seu jornalismo cor-de-rosa, decidiu encarnar a Fernanda Câncio e titulou um almoço de homenagem da Presidência da República a quem se distinguiu em Portugal e no Estrangeiro com esta aberração:

 

Diana Chaves e Joana Santos no beija-mão a Cavaco (título da notícia).

 

Será que denoto alguma má-vontade da senhora jornalista em relação a Cavaco Silva? Esperava ela, quem sabe… ser uma das homenageadas pelos seus serviços à língua-pátria? Ou terá isto alguma relação com o DN e JN pertencerem ao “amigo Joaquim [Oliveira]”?

 

E já agora, senhora jornalista (chamo-lhe isto com ironia) Márcia Gurgel, preste mais atenção ao seu trabalho. O almoço foi oferecido no Sábado – não no Domingo como reporta.

Relvas na Visão

Entretanto, a Visão online, também pertencente ao universo de Balsemão, di-lo – mas sem direito a fotografia.

 

O título é esclarecedor: “Ex-empresa de Relvas sob suspeita“

 

O resumo é reforçador: “A Finertec, empresa que Miguel Relvas administrou, até Maio do ano passado, foi investigada na Operação Furacão”.

 

Enterrado no meio do artigo: “Os factos em investigação remontam a 2006, dois anos antes da entrada em funções de Miguel Relvas“.

 

Uma bela guerrinha, esta que Relvas arranjou.

Relvas no Expresso

O Expresso online noticia gulosamente que a Finertec, empresa que Miguel Relvas administrou durante algum tempo, foi investigada por fraude e evasão fiscal. É certo que não diz se os factos suspeitos se passaram durante a administração de Relvas – o que é um pequenino detalhe.

 

Mas aquilo que verdadeiramente me chamou a atenção para o artigo foi a foto que o ilustra: Miguel Relvas ao telefone com cara de mau.

A subtileza desta escolha editorial…

José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira diz que todos são coniventes: Secretários de Estado que negociaram os contratos ruinosos; Ministros que assinaram os contratos que sabiam ruinosos; e até o Presidente que promulgou sabendo que eram contratos ruinosos e aldrabados. Ou seja, coniventes por acção e inacção.

 

E não lhe nego legitimidade na argumentação. Só que segundo esta linha de pensamento, o próprio José Gomes Ferreira pode ser, então, acusado de conivência por inacção. Enquanto Sócrates aparentava força, Gomes Ferreira pouco mais fez do que retransmitir os números do Governo sem verdadeiramente questionar os métodos, a irrealidade das projecções ou o eleitoralismo das medidas (embora sem cair, reconheço-o, na sabujice de Peres Metello). Ou seja, retransmitiu sem escrutinar como seria expectável de um editor de Economia. A única rebeldia que se permitiu, uma vez por outra, foi dar tempo de antena a Medina Carreira – mas quase sempre como um mestre-de-cerimónia que exibe um circo de aberrações.

 

Por isto, a sua indignação, que se foi tornando mais visível quando se percebeu que o governo Sócrates estava com os dias contados e a bancarrota Sócrates no início dos seus dias, parece-me tardia – mesmo que correcta.

Luta de poder

A demissão do Conselho de Redacção do Público com convocação de eleições não tem a ver com jornalismo: é pura luta de poder. A começar pelo argumentário da “clarificação” e “legitimação”, tão usados nos partidos políticos e clubes de futebol quando o objectivo é asfixiar a oposição interna antes que esta adquira suficiente massa crítica.

 

Já antes manifestei a minha estranheza pelas razões que levam um grupo como a Sonae a sustentar estas brincadeiras. Espero enganar-me, mas o outrora jornal de referência Público arrisca-se a seguir o mesmo caminho que a defunta A Capital.

Por qué no te callas?

Já chega. Façam-no parar. A sério! Açaimem-no. Os jornais insistem em colocar o microfone à frente do velho Soares para que ele, com moralidade inexistente, exercite a sua cara-de-pau sem qualquer escrutínio. Ana Sá Lopes, neste triste episódio, parece uma sopeira: “o sr. dr. isto”, “o sr. dr. aquilo”, “o sr. dr. acha”…

 

Sempre que Soares fala, eu sinto-me insultado.

 

Ao querer afastar-se da troika, e culpar o actual governo pelas dificuldades que alguns sentem, o escorregadio Soares parece aquelas pessoas que passaram décadas a fumar seis maços diários – e depois culpam o médico por perderem o cabelo na quimioterapia.