Os jornais repassam, gulosos, a notícia da Lusa de que “centenas” de indignados saíram à rua para exigir a demissão de Passos Coelho. Ignoremos, por agora, o facto de que essas centenas de indignados pedem a demissão de Passos Coelho desde a noite em que foi eleito (já sabemos o conceito de democracia que estas centenas de indignados perfilham). Deixemos passar sem grande comentário que as “centenas” foram, segundo a própria Lusa, duas em Lisboa e duas no Porto (é justo, afinal, dois já é plural). Não deixemos, no entanto, passar em claro que se pretende dar peso democrático a um número de pessoas que é, em muito, inferior ao número de pessoas que festejaram o terceiro lugar do Paços de Ferreira no último campeonato de futebol…
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Organizadores de eventos
Num momento de azar, passei pela SIC-Notícias quando o jornalista/propagandista de serviço entoava loas à manifestação dos professores.
É sempre interessante comparar aquilo que se vê presencialmente com aquilo que é anunciado nas televisões, algo que pude fazer ontem.
O jornalista exultava com os muitos milhares de pessoas que se manifestavam; não o ouvi comentar que muitos daqueles manifestantes eram menores, certamente trazidos por professores e organizadores para compor a fotografia, e cujo móbil não seria o “ataque à escola pública” – mas ir lambiscando o gelado.
O serviço noticioso(?) também mostrava uma professora que teria vindo de bicicleta (não me recordo de onde) para se manifestar. Aqui estava, parecia dizer a SIC-N, a prova do descontentamento de uma classe. As câmaras televisivas conseguiram ver uma professora de bicicleta; o que as câmaras não conseguiram ver, e eu vi, foi o cortejo de oito autocarros vindos de Viseu e da Guarda – 8! -, três deles “veículos longos”, que desceram a Avenida a alta velocidade e com escolta policial. Estes oito autocarros vinham de Viseu e da Guarda. Como estes oito, muitos mais vieram de outros locais, pois os Sindicatos, como bem sabemos, não brincam em serviço. Mas as câmaras conseguiram falhar algo tão grande como uma comitiva de autocarros – quando conseguiram encontrar uma professora de bicicleta.
Os sindicatos têm uma evidente capacidade organizativa. Não consigo deixar de pensar que, se colocassem essas capacidades ao serviço da verdadeira reorganização da escola pública, seriam os nórdicos a vir cá estudar-nos.
O chiqueiro
“Eu só estava ali a mostrar um cartaz, vem um polícia à paisana e agrediu-me”, diz o manifestante. Como se pode ver no vídeo acima, é verdade: o segurança deu uma violenta cabeçada no punho deste humilde.
O sindicalismo cegado pela ideologia é assim: irresponsável e mentiroso com quantos (poucos) dentes tem na boca, mesmo quando é filmado por aqueles a quem mente. E os “populares” que, em vez de lamentarem os excessos de um camarada, chamam fascistas e pides aos agentes da polícia que estão fazendo o seu trabalho, não são menos vermes.
Para terminar, um reparo à titulação dos jornais: não foi um manifestante que foi detido em Leiria – foi um agressor de um membro da comitiva ministerial. A sequência causa-efeito aqui não foi manifestação-detenção: foi agressão-detenção.
Primeira página
Admito nunca ter dedicado muito estudo à paginação de jornais. Não consigo, no entanto, libertar-me da sensação de que a primeira página do Expresso de hoje foi pensada ao detalhe. Senão, vejamos: “Governo muda discurso” é a manchete; “Empresas de transporte cortam carreiras e perdem passageiros”; “Austeridade destruiu…”. No canto inferior direito, em letra vermelha para chamar a atenção: “Assunção Cristas ignora regras e nomeia ex-colegas” – e, no lado oposto, no canto menos lido, em fonte minúscula e com um pequeno cabeçalho azul-pálido: “Défice controlado”.
Isto é uma ciência – principalmente num jornal propriedade do esperto Balsemão e dirigido pelo cínico Costa e pelo “ingénuo do laço” Nicolau Santos.
Retrato do artista
O grave Soares sente urgência, e a urgência nunca foi boa conselheira. Compara as manifs de agora com aquelas que precederam o final da Monarquia, e quer que Coelho se demita ainda antes das decisões do Tribunal Constitucional. Soares é um grande democrata – quando é o seu lado que vence.
O velho Soares, com estes apelos, faz lembrar as crianças que atiram o tabuleiro de jogo ao chão quando percebem que perderam. O decano Soares sonha com um novo 5 de Outubro, certamente para poder reviver essas excitações da sua adolescência. Juntando as declarações de hoje com o que escreveu no passado recente:

fica a ideia de que Soares não desdenharia a reedição do regicídio adaptado a este nosso regime. E não deixa de ter a sua piada: o pesado Soares invoca o final da monarquia – logo ele que se imagina com uma coroa na cabeça.
O gasto Soares quer a troika fora daqui – e eu pergunto-me quantos dos fundos que a sua fundação manhosa recebe são graças à troika, ou quantos dos postos que sustentam o seu clã ainda existem graças aos dinheiros que chegam da troika.
Soares é um vermículo – tal como vermículos são aqueles que lhe dão tempo de antena. O antiquíssimo Soares não tem soluções nem tem solução.
O disparo de 13%
O título está muito bem conseguido: “Vendas disparam na empresa que prepara máquinas de facturas“. É todo um tratado de questões que a Lusa, amplificada aqui pelo paladino desinteressado chamado Expresso, insinua: pensa-se logo se “As mudanças legais introduzidas no dia 1 de Janeiro de 2013 [que] fizeram com que muitos clientes antecipassem a actualização das suas ferramentas de trabalho” não terão sido cirúrgicas para benefício desta empresa. Já imagino Arménio Carlos, numa próxima manifestação, a repetir que “os amigos são para as ocasiões”.
Mas, depois, lê-se a notícia com mais atenção: as vendas subiram 13,2%. 13,2%, para a Lusa, é um disparo! Mais: descobre-se que as exportações subiram 30%. Nem a Lusa, nem o Expresso, nem o jornal I, nem certamente nenhum dos outros que gulosamente repassaram a notícia, se preocuparam em fazer umas contas rápidas num papel para perceber quanto desse “disparo de vendas” se deveu ao aumento de exportações. Não: o que é preciso é ligar na opinião pública os eventos alteração de legislação, obrigatoriedade de novas máquinas e mais 13,2% de vendas.
E eu termino perguntando à Lusa: se 13,2% é um disparo, que nome se dá à triplicação de facturação que a JP Sá Couto conseguiu graças ao Magalhães, esse transparentíssimo ícone do socratismo?

Um exercício de ironia?
Na introdução à entrevista, a jornalista avisa o leitor para este se empenhar ao máximo, por forma a compreender as entrelinhas e entre-entrelinhas de Augusto Santos Silva, e poder apreciar todo o esplendor da sua “fina ironia”:
“As entrevistas a Augusto Santos Silva são para ser lidas nas linhas e nas entrelinhas e tendo em mente a fina ironia que caracteriza este ex-ministro”.
“Fina ironia”… falar da fina ironia do caceteiro Augusto Santos Silva é como tecer loas à elegância de Cicciolina.
O livro de estilo comum
Quase apetece dizer que há uma cartelização nas primeiras páginas dos jornais.
Na edição de hoje do Correio da Manhã, lê-se que
Dúvidas de Cavaco valem 1,8 mil milhões
Já o Jornal de Notícias titula que
Dúvidas de Cavaco valem 1,8 mil milhões
O Público, felizmente, optou por ser original e pensar pela sua própria cabeça:
Dúvidas de Cavaco sobre OE valem 1,5 mil milhões
Como fazer jornalismo de investigação
De como Guadalupe Portelinha, da Associação Abril, fez o que o medíocre Nicolau Santos do Expresso não soube (ou quis) fazer:
Eu chamo particular atenção para a parte que destaquei: “Fiz uma pesquisa na internet e não aparecia o nome dele em lado nenhum. Hoje qualquer anónimo aparece e achei estranho.” Já Nicolau Santos esclarece, num texto com oito pontos, que:
8. O Expresso e eu próprio assumimos este erro e iremos reforçar os mecanismos que permitam um controlo acrescido sobre a credibilidade das fontes com que lidamos diariamente.
Tem piada: se houvesse a mínima vergonha na cara, Nicolau Santos ter-se-ia demitido e o Expresso apresentaria isto no início da lista. Mas não: é o último ponto do rol, o “controlo acrescido sobre a credibilidade das fontes”. O controlo acrescido, pelo que Guadalupe Portelinha mostrou, é ir a um motor de busca – uma complicação para estes jornalistas, grandes na sua própria imaginação.
Do jornalismo (2)
Eu já critiquei o jornalismo que se faz por cá. Num mundo em que o mais valioso, para um jornal, é receber cliques vindos do Google, a qualidade daquilo que se publica deixa de importar tanto e, nessa economia de pageviews, os preços mais baixos da publicidade deixam, num mercado pequeno como o português, de suportar os custos exigidos pela investigação jornalística.

Mas o que se passou com este cavalheiro chamado Artur Baptista da Silva, que durante meses se passeou como economista, funcionário da ONU, professor universitário e sábio, dando palestras e participando em “programas de debate” na TV, não é apenas sintoma da fraca qualidade do jornalismo que temos. É também um sinal de como algum “jornalismo”, mais interessado em fazer combate político do que em cumprir o seu papel, não se preocupa minimamente em escrutinar aqueles cuja mensagem serve os seus interesses.
