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As promessas do dia

Costa promete acabar com prova de acesso à carreira docente. Sugere que irá acabar com o exame de inglês no Ensino Básico. Afirma que irá evitar “descontinuidade no sistema educativo” – até tremo só de pensar nos possíveis significados para esta talhada de coisa nenhuma. Proponho que Costa prometa acabar com os exames de entrada na faculdade. E já agora, porque não acabar também com os exames – teórico e prático – da carta de condução?

 

Na Finlândia, o governo presenteia todas as mulheres grávidas com uma caixa de cartão que inclui roupas, lençóis e brinquedos. António Costa que prometa incluir também uma carta de condução e um diploma universitário com o nome do curso em branco – para o rebento poder depois escolher o que será conforme a sua vocação.

Extraordinário, diz ele

Nicolau “ouçam Artur Baptista da Silva” Santos perpetrou um texto à volta da palavra confiança. Afirma ser surpreendente que a coligação tenha conseguido centrar o debate nas propostas do PS, e imagino que lamenta isto estar a dar dividendos. Ele parece perplexo:

Não há pobreza, não há desigualdades sociais, não há cortes nos salários e pensões, não há promessas que tenham ficado sucessivamente por cumprir, não há 485 mil portugueses que tenham sido obrigados a emigrar entre 2011 e 2014, segundo dados ontem divulgados pelo INE, não há problemas no Serviço Nacional de Saúde, nem na Justiça, nem na Educação. Nada. O grande problema do país é o programa do PS.

Depreendo que, para Nicolau Santos, não houve um país falido em 2011, não houve um resgate financeiro em 2011, não havia milhares de milhões em dívida camuflada em 2011. Nada. Nicolau assume que Passos Coelho fez os cortes que fez, e tomou as decisões que tomou, porque gosta que as pessoas andem a cuspir-lhe na efígie ou a espetar alfinetes em bonecos-vudu enquanto pensam nele.

 

Sim, Nicolau Santos, o grande problema do país é o programa do PS. Porque neste programa está escarrapachado um regresso ao passado recente, a um modelo económico que não funciona, de todo, num país pequeno e com recursos limitados como é o nosso. O programa Centeno nem sequer assenta na estratégia “leve agora e pague depois” – é mais do género “leve agora e depois logo se vê”.

As sondagens

O António, no texto anterior, menciona a unanimidade das sondagens ao indicarem uma vantagem da coligação. Eu, pessimista, mantenho-me cauteloso. Primeiro, penso que as sondagens não têm grandes amostras (500 ou 1000 entrevistas) e as metodologias são limitadoras (apenas telefone fixo, por exemplo). Mas o mais importante é isto: a coligação estar à frente do PS implicaria que o eleitorado teria bom-senso – e, francamente, acho mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que o bom-senso entrar na cabeça do povo português.

Costa perdeu as eleições

As sondagens valem o que valem, mas valem alguma coisa. De forma unânime, vão dando empate técnico com ligeira vantagem para a coligação. As que desafinam, dão uma vitória clara da coligação. É engraçado ouvir os comentadeiros especialistas afirmando que não se pode dizer que a coligação siga na frente, pois a sua vantagem (mesmo quando ronda os 6/7%) está enquadrado no intervalo de erro da sondagem. Não deixa de ser verdade. O que também é verdade e legítimo é que se aplicarmos essa margem de erro em sentido inverso a vantagem é de 14%…

 

A única certeza que há, para já, é que António Costa vai perder as eleições. Mesmo que ganhe! E é preciso ser um político fantástico para conseguir perder as eleições, mesmo quando as ganha. Até para Costa, habituado a dizer uma coisa e o seu contrário e a deambular entre a ala mais moderada e a mais radical do PS de acordo com os ventos da conveniência, esta é uma façanha digna de registo. Perante um Governo obrigado a aplicar medidas austeritárias faraónicas e que cortou tudo o que havia para cortar, até um banco de cozinha do IKEA ganharia facilmente as eleições, com uma margem confortável. Mas o PS não elegeu como líder um banco de cozinha do IKEA. Lamentavelmente, elegeu Costa…

 

O PS convenceu-se, há cerca de dois anos, que seriam favas contadas. António Costa dedicou-se mais à purga interna e às execuções em praça pública do que a explicar aos portugueses porque poderia ser uma alternativa válida. Não o fez também porque não o é. Hoje, as pessoas veêm-se na contingência de votar na coligação. Ou de ir à praia. Ou de ficar a ver a bola. Se dúvidas houvesse, Costa tratou de as esclarecer, quando decidiu ameaçar o eleitorado…

Cuidar da vidinha

Freitas do Amaral jamais perdoou ao PSD este não o ter conseguido eleger para a presidência da república. A partir daí, e porque os confortos da vida são mais valiosos do que manter uma coluna vertebral direita, vem convergindo sempre para a faixa do PS.

 

Nos tempos de Sócrates, apareceu, qual pequeno-almoço com Figo, na véspera de eleições a afirmar-se “convencido” pelas propostas do PS. Porque estas coisas têm um preço, lá recebeu o seu ministeriozito como recompensa. Agora, sem surpresa para mim, vem manifestar publicamente o seu apoio ao “experiente, sério e democrata” (sic) António Costa.

 

Eu não prestei muita atenção ao que ele escreveu, tal como não prestei muita atenção ao debate, por uma simples razão: decidi que se o eleitorado os quer de volta, então que depois limpe as mãos à parede. Contudo, mesmo lendo na diagonal a missiva amaraliana, duas ou três ideias saltaram-me à vista.

 

Freitas do Amaral acusa Passos Coelho de hipocrisia ao gabar a sua estabilidade governativa apesar de ter perdido quatro ministros em três anos: Victor Gaspar, Miguel Relvas, Álvaro Santos Pereira e Miguel Macedo. Esquece-se convenientemente de o seu anterior patrão, José Sócrates, ter perdido o seu primeiro ministro das Finanças ao fim de poucos meses, mal este viu o desvario que se aproximava. A estabilidade, para Freitas do Amaral, é um conceito com pesos diferentes conforme se manifesta no lado direito ou no lado esquerdo. E Freitas do Amaral também se esquece, muito convenientemente, de que dois ministros de Passos Coelho apresentaram a demissão por estarem, directamente ou indirectamente, envolvidos em questões duvidosas – o que é uma variação refrescante depois do longo consulado governado por Sócrates.

 

Freitas do Amaral diz esperar que o PS defina, porque o dinheiro não chega para tudo, prioridades nacionais no plano cultural, e que evite desastres colossais como o megalómano edifício do Museu dos Coches. Tem piada como, quando se está na Esquerda e a cheirar o poder, já o dinheiro não chega para tudo e é necessário definir prioridades. Mas o mais repugnante é que Freitas do Amaral se pareça esquecer, muito convenientemente, de que o tal colossalmente desastroso edifício megalómano do Museu dos Coches foi um projecto do governo de Sócrates, adjudicado pelo governo de Sócrates e cuja construção foi iniciada ainda durante o governo de Sócrates.

 

Finalmente, e aqui é que eu levei as mãos à barriga de riso, Freitas do Amaral, o tal que apoiou e foi ministro de José Sócrates, acusa Passos Coelho de ter um estilo “neoautoritário” (magnífico!) e acusa-o também, Freitas do Amaral que apoiou e apoia e foi ministro de José Sócrates, de ter aos poucos conseguido controlar quase todos os órgãos da comunicação social. Passos Coelho controla a comunicação social – num mundo em que o ex-advogado de José Sócrates controla o grupo que possui o DN, JN e TSF entre outros; em que o grupo de Balsemão dá guarida a tudo o que é crítico da coligação e deu guarida, a troco de um chorudo ordenado, a António Costa na Quadratura do Círculo; em que a outra televisão privada, TVI, é dirigida por um assumido amigo e admirador de José Sócrates; em que o Público tem um corpo editorial e uma linha de orientação que parecem saídos do PREC.

 

Freitas do Amaral devia-me merecer uma gargalhada, ou até um abanar de cabeça condoído. Freitas do Amaral, contudo, só me causa repulsa.