Aquivos por Autor: João Sousa

Pelas razões erradas

O livro de valter hugo mãe (em minúscula por respeito à grafia do próprio) “O Nosso Reino”, que tem despertado muita polémica por, tendo conteúdo sexual e/ou violento, fazer parte das leituras recomendadas a alunos dos 7º ao 9º anos de escolaridade, deixará de ser recomendado. Na verdade, o que me choca mais não é o facto de um livro onde se pode ler:

“(…) E a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponha a pila no cu.”

ter sido colocado nas leituras para alunos de 13 anos. O mais chocante, para mim, é mesmo que haja um conjunto de paineleiros a achar um livro de valter hugo mãe “uma obra de qualidade”.

Vai precisar de factura?

Ouve-se agora, enquanto se aguarda nas estações do Metro de Lisboa, o anúncio à obtenção online das facturas da compra de passes e bilhetes. Diz a senhora que ir ao site é “fácil, rápido, seguro e evita tempo de espera nas filas”.

 

Não.

 

Fácil? Seria muito mais fácil se, em vez de delegar no cliente a necessidade de ir a um site de internet colocar nem sei que dados, pedir o documento em questão e imprimi-lo a suas expensas – o Metro de Lisboa entregasse a factura no acto da compra como a lei obriga. Rápido? Muito mais rápido seria se o Metro o entregasse no momento da transacção em vez de fazer o cliente gastar do seu próprio tempo. E evitar perda de tempo nas filas? Ora, se o papelinho nos fosse entregue logo no acto da compra, tal como é exigido às outras empresas, não perderíamos tempo algum além do que já gastáramos a comprar o passe ou bilhete.

 

Ao contrário do que o Metropolitano de Lisboa nos pretende fazer crer, nada neste processo é um favor ao cliente (que também é contribuinte). O Metropolitano de Lisboa, empresa do Estado, não faz (impunemente) aquilo que o Estado exige (sob pena de punição) a qualquer tascazita de esquina: entregar factura no acto da transacção. O Metropolitano de Lisboa, em pleno ano de 2017, não tem  forma de imprimir o papelinho de caca nas suas bilheteiras e máquinas porque não as modernizou. O sr. Metropolitano de Lisboa até chegou a abanar a “falta de fundos” como argumento para não o ter feito atempadamente. A isto eu respondo: tretas. A administração do Metro, em nome do governo que a nomeou, definiu prioridades: acalmar sindicatos e comprar votos “devolvendo direitos e garantias” aos funcionários do Metro – em detrimento de tudo o resto.

 

Perante um orçamento que não é elástico e um descoberto amor pela apresentação de um défice abaixo dos 3%, só existiam dois caminhos possívels: ou havia dinheiro para aumentar ordenados e regalias e (re)admitir funcionários; ou havia dinheiro para as manutenções básicas, cartolina para bilhetes e modernizações necessárias. Optaram pelo caminho mais cínico e cobarde e o resultado está à vista dos que usam o Metropolitano: funcionários satisfeitinhos e caladinhos, sindicatos anestesiados – e um serviço prestado a níveis muito mais erráticos e degradantes do que em qualquer momento dos tais “anos negros da austeridade”.

Pozinho de estrela

A verdade, verdadinha, é que por mais camadas de verniz civilizacional que lhe aponham através de notícias encomendadas na Caras e na Lux, comendas apostas ao peito por sonsos e múltiplos espectáculos pagos por ajuste directo municipal – um cretino nunca deixa de ser um cretino.

 

A história já tem dias e conta-se em poucas palavras – e por muito poucas que sejam, serão muitas mais do que o personagem em questão merece. Na terça-feira passada, durante as cerimónias fúnebres do velho Soares, o insuportável Tordo, Fernando de seu nome, achou por bem publicar a seguinte atoarda no Facebook:

20177070_sflKP.jpeg

Algum tempo após, movido pelo rebate das críticas que lhe foram feitas, pois consciência não tem para lhe rebater, removeu o textículo em questão. No dia seguinte, reassumiu – o que já não se podia ler – e justificou-se – não justificando nada.

 

Todo este episódio retrata na perfeição o perfil da criatura torda. Durante o funeral de alguém que, pelos vistos, tanta admiração lhe merecia, este comendado mitra, ao invés de respeitar a solenidade do luto – tira o smartphone do bolso e cospe ódio no “Face” por alguém que ousou fazer aquilo que, para si, deve ser desprezível: nascer humilde e superiorizar-se graças ao trabalho e esforço. Depois, ao escrever o que escreveu, manifestou ser um reles canalha; ao apagá-lo como apagou, provou ser um cobarde; e ao justificar-se como se justificou, mostrou ser um hipócrita.

Nothing to see here…

O Estado emitiu dívida pagando 4,23% de juros. Esta taxa é “só” quase 1,4% superior ao pago no ano passado, “só” 1,7% superior ao pago em 2015, e “só” superior à já exuberante percentagem que a DBRS impunha como condição para não descer a cotação (entretanto, perante o continuado subir das taxas de juro, já relativiza aquilo que antes era absoluto).

 

E Marcelo, o que faz o afectuoso Marcelo perante este cenário já visto em 2010 e 2011? Pois afirma “não haver razão para alarme”, debitando umas talhadas de spin que, pelo seu descabelado, só podem ter sido sopradas ao presidencial ouvido por Galamba e Centeno.

Francamente, quando li as desdramatizações de Marcelo, só consegui pensar nesta imagem:

0622153663045176.jpg

 

Seguramente está enganada

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros diz que, algures num hospital público, doentes ficaram dois dias sem medicamentos e alimentação. Fui ver a data da notícia: Dezembro de 2016, não Dezembro de 2015 ou 2014. A senhora bastonária deve estar enganada pois estes são os Novos Tempos, não a Idade das Trevas Austeritárias: a falta de alimentação não é falta de alimentação – é restrição calórica. 

O eterno fado do corno

Segundo é noticiado, o governo encontrou uma “solução” para os “lesados do BES”. A solução será anunciada na próxima sexta-feira por António Costa. Por outras palavras: na próxima sexta-feira, aqueles (os contribuintes) que irão realmente pagar a “solução” para os “lesados do BES” ficarão a saber o que foi decidido para o seu dinheiro. O corno é sempre o último a saber…

A transparência segundo Fernando Medina

Inegável discípulo do seu mestre, Fernando Medina demonstra possuir a mesma paixão pela transparência – e por ocupar cargos para os quais não foi eleito. Perante a costumeira derrapagem na data de conclusão de três das obras que desfiguram Lisboa, a Câmara optou por, na melhor tradição de Estaline, apagar do seu site as datas inicialmente previstas.

 

Entretanto, quando questionada sobre as causas para os atrasos, a Câmara de Medina sacudiu, na melhor tradição socialista, a água para capotes alheios – porque a culpa nunca é do PS. No caso do Largo da Graça, desculpa-se com os arraiais dos santos populares: ficamos assim a saber que a Câmara é tão lassa no planeamento das obras que não consegue antecipar a ocorrência de uma festividade por cuja organização é directamente responsável! No caso de Campolide, desculpa-se com a Carris que precisou de um percurso alternativo: ficámos portanto a saber que a Câmara, durante as semanas ou meses que passou naquela zona a planear a obra, nunca reparou nuns veículos razoavelmente grandes que passavam por lá com suspeita regularidade.

 

Lisboa não merece esta gente. Mas os lisboetas, que se vão esquecer de toda esta bandalheira e elegê-lo nas próximas autárquicas, merecem-no por inteiro.

A Caixa

O comportamento iníquo do governo em todo este episódio da Caixa Geral de Depósitos acaba por ter um efeito irónico: é o próprio PS a mostrar que a Caixa devia sair da alçada estatal.

Um!

Lisboa, Sábado, nove e meia da manhã. O ar, com um leve aroma a folhas secas, estava fresco e convidativo. Após passar pela livraria para comprar revistas, tinha uma hora para chegar ao local de trabalho e, como qualquer pessoa sensata com prazos para cumprir – optei pela garantia do caminhar em detrimento da sindicalizada balbúrdia do sistema de transportes públicos. Pois sabeis, nos quarenta e cinco minutos de caminhada maioritariamente em ruas servidas por ciclovias, quantos ciclistas vi? Um! Não foi um pelotão, nem um grupo, nem um punhado, muito menos um singelo par. Foi mesmo um(!) ciclista a usufruir dessas infraestruturas com que os lisboetas são importunados pelos visionários Zés e Medinas.