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O Chico dos lingotes

 

Francisco Assis, acima lembrado por uns gloriosos supapos que levou em Felgueiras, alinhou com o cinzento Seguro na construção de uma narrativa (que bela palavra: narrativa). Agora, a um mês e meio da comemoração dos 40 anos do 25/4, compara-se o actual governo ao Estado Novo, os seus líderes a Salazar e qualquer dia vem a conversa da PIDE (talvez hoje tenhamos esse privilégio, depois da manifestação dos polícias).

 

A determinada altura, Assis faz o paralelo entre o discurso do Governo que, em suma, defende que o país está melhor mas as pessoas ainda não sentem a diferença, com a postura do Estado Novo: povo pobre e cofres cheios de lingotes de ouro. Aqui, não o desminto. Se há alguém que percebe muito acerca dos lingotes de ouro nos cofres portugueses são os socialistas. Afinal, andaram a esbanjá-los durante mais de uma década.

O lamentável (in)Seguro

O dinâmico António José Seguro tenta, como qualquer outro invertebrado o tentaria fazer no seu lugar, cavalgar esta onda de protestos dos professores. Ontem, afirmou:

 

Ninguém compreende que ao fim de três ou quatro anos de se estar a lecionar tenha de se fazer uma prova e que duas horas de exame determinem se uma pessoa continua ou não a lecionar numa escola.

 

Concordo com a primeira parte do seu argumento. Realmente, não compreendo como se demoram três ou quatro anos para prestar provas de aptidão para o ensino – isso devia ser feito ANTES de se começar a dar aulas. Quanto ao exame, Seguro está a ver a coisa ao contrário: as duas horas de exame, na minha opinião, não servem para determinar se uma pessoa continua ou não a leccionar numa escola – servem para determinar se essa pessoa ALGUMA VEZ devia ter leccionado.

 

O líder do PS defende que não faz sentido um exame para professores que já estão a lecionar (…)

 

Certo. Para Seguro, se alguém está a realizar um determinado trabalho (bem ou mal, parece não lhe interessar), não tem que prestar provas de capacidade para o fazer. Pelo mesmo argumento, poderia dizer que Artur Baptista da Silva não tem que provar ser economista – pois já fez de conta que o é.

 

Numa coisa concordo com Seguro: esta prova é injusta. Para mim, a prova, tal como avançou, representou um recuo lamentável de Nuno Crato. Seguro diz “compreender que para se aceder a uma profissão se possa exigir um conjunto de condições para saber se a pessoa o pode fazer para além das habilitações que obteve” (e, portanto, parece estar de acordo com a realização de uma prova deste género), mas não compreende porque se exige aos docentes com cinco ou menos anos de profissão. “Porque é que se aplica aos de cinco anos e não aos de seis ou sete ou aos de quatro»?”, perguntou o líder socialista, que classifica esta prova de injusta. Eu também a acho injusta, mas não a limitaria aos seis ou sete anos. Todos os professores a deviam realizar – a começar por aqueles que são avaliados com um Bom sem darem uma aula há décadas.

 

Mas claro, com Seguro e o PS sempre dispostos à demagogia e ao desleixo, se a prova é injusta por apenas alguns a fazerem – ninguém a faz.

Escorregadio como uma enguia

António José Seguro já vem dizendo que Portugal não pode voltar à despesa de há dez, vinte ou trinta anos. Vamos passar por cima do detalhe de muito do mal ter sido causado pela despesa de há quatro, seis ou oito anos. A questão é que Seguro, agora, hoje, já quer um “acordo alargado” sobre a despesa. Amanhã, logo se verá.

 

Isto, vindo de quem vem, só pode ser para rir. Tendo Seguro, na prática, sabotado a hipótese de acordo alargado sobre a reforma do Estado que Cavaco Silva propôs, e tendo Seguro radicalizado cada vez mais o seu discurso, vir agora fazer cara de santo e propôr “acordos alargados definindo limites para a despesa primária” é de uma hipocrisia digna do seu partido. Que se seguirá, Seguro propor que o défice e a dívida tenham limites impostos na Constituição?

Sou todo ouvidos

O PS tem “dúvidas fundadas” de que está sob escuta. Por outras palavras, o PS “duvida com fundamento” que esteja a ser escutado. E aqui está um soundbyte criado por analfabetos funcionais.

 

Quem quereria escutar o PS se este, politicamente, não tem nada para ser escutado? Só por puro masoquismo é que alguém passaria horas a fio, de auscultadores na cabeça, a ouvir as nulidades de Seguro e companhia. Seria múltiplas vezes mais interessante – gravar um feijoeiro a crescer.

Cavaco: xeque!

 

Esta crise política começa a parecer um enredo de uma novela mexicana, daquelas que preenchiam as grelhas vespertinas das nossas televisões há uns 15 anos atrás. Com intrigas, revelações e traições mal dissimuladas, os ingredientes estão todos lá. 

 

Não me parece que Cavaco tenha evidenciado uma visão desproporcionada dos seus poderes, como já ouvi, e também não me parece que seja suficientemente ingénuo ao ponto de acreditar que o acordo por si proposto seja viável, como também já ouvi. Cavaco entrou neste enredo e encostou o PS à parede. Com sacrifício da imagem deste Governo, talvez merecido, o Presidente da República propôs uma solução que, até aqui, só tinha conhecido o firme desacordo público das hostes socialistas. É, no entanto, a solução mais popular. Seguro, que tem procurado capitalizar o desgaste alheio recorrendo ao seu marasmo genético, vê-se na contingência de escolher: ou fica de fora, mal visto pelo povo e pelas instituições europeias, ou aceita esta solução, e perde o discurso que tem alinhavado para as próximas eleições, sejam estas quando forem.

 

Duas notas reforçam a minha argumentação: ao contrário do que se tem lido por aí, Cavaco não sugeriu eleições em Junho de 2014. Sugeriu a negociação de um calendário que implique eleições a partir de Junho de 2014, o que é completamente diferente. Por outro lado, deixou no ar a ideia de que, caso este cenário falhasse (e é neste cavalo que o PR aposta), há um Governo em funções, perfeitamente legitimado.

 

Imagino assessores socialistas a tentar arrancar Seguro, forçado a agir, de debaixo de uma secretária, num qualquer gabinete do Largo do Rato.

O zero

A perspectiva de eleições antecipadas, apesar de tudo, não seria tão dramática se, em vez do elemento-absorvente-da-multiplicação Seguro, o PS apresentasse (finalmente!) um dos bons elementos que o compõem. Por exemplo, o… o… o…

 

Bolas, estamos mesmo tramados.