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Tecnicalidades

O Expresso anuncia, e o Sapo dá-lhe direitos de ecrã completo, que o Governo desviou dinheiro do IVA para pagar os Audis sorteados em 2014. Concedo: não é estritamente correcto em termos de planeamento. Mas, fosse no tempo do outro cavalheiro que esteve lá antes, a despesa teria sido feita às escondidas, desorçamentada, e seria descoberta anos depois pelo governo seguinte para acrescentar à dívida pública. Têm saudades desse tempo? Dar tanto tempo de antena àquilo que não passa de uma tecnicalidade legal parece-me um pouco despropositado. 

Circo

Em Janeiro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, opunha-se ferozmente à lei da Convergência de Pensões proposta pelo governo afirmando-a “ferida de morte” de inconstitucionalidades.

 

Em Novembro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva antecipe as eleições legislativas do próximo ano – apesar de a lei (aprovada em 1999) afirmar, preto no branco, que devem ser marcadas para o período entre 14 de Setembro e 14 de Outubro. Ou seja, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva faça algo – “ferido de morte” de ilegalidades.

 

Se Vieira da Silva, apoiante de Guterres para a Presidência e de António Costa para Primeiro-Ministro, tiver alguma dúvida sobre esta lei, pode pedir esclarecimentos a… António Costa, na altura da aprovação Ministro dos Assuntos Parlamentares e que negociou a lei – ou a António Guterres, na altura Primeiro-Ministro.

 

Tem a sua piada. Em 1999, o PS no governo não se preocupou minimamente com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado. Em 2014, curiosamente, o PS na oposição mostra-se preocupadíssimo com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado.

 

Mais curiosamente ainda, o mesmíssimo PS de António Costa que na oposição se mostra preocupado com os calendários eleitorais poderem dificultar a elaboração do Orçamento de Estado – já está uma semana atrasado na apresentação do orçamento municipal no município onde governa há sete anos, e isto apesar de as eleições respectivas  terem sido no ano passado.

 

Como é que esta gente pode querer ser levada a sério?

Piada fácil sobre os 23,25%

Se o Governo tenta cumprir o que prometeu e o Tribunal Constitucional obriga a fazer o contrário, é o Governo que é malsão. Se o Governo vai contra o que prometeu para seguir a linha que o Tribunal Constitucional exige, é o Governo que é malsão.

 

Um pouco mais a sério: o Tribunal Constitucional já mostrou não querer medidas de consolidação orçamental pelo lado da despesa. Os senhores do TC, muita gente da Oposição e mesmo alguma do lado do Governo, parecem seguir a filosofia de Sir Humphrey Appleby que afirmava algo como “a eficácia dos serviços públicos está na razão directa da quantidade de dinheiro que conseguem desperdiçar”.

 

Do que é que se estava à espera? Eu, no mínimo, de menos aselhice na comunicação governamental.

Os diabinhos negros e os bispos vermelhos

D. Januário Torgal Ferreira foi ontem à TVI24 cantar uma missa. Uma missa conhecida, daquelas a que nos habituaram outro tipo de intérpretes. D. Januário veio falar de “diabinhos negros” no Governo, ao mesmo tempo que reforçava o seu estatuto de bispo vermelho. Esta é uma daquelas situações em que, para o senhor bispo das Forças Armadas, a separação entre a política e a religião deve ficar fechada na gaveta.

 

Afirmou este bispo, entre outras pérolas da retórica da cassete, que os membros do anterior Governo, quando comparados com o actual Executivo, eram autênticos anjos. Ora, comparar José Sócrates a um anjo é um exercício deveras interessante. Como se sabe, no fulgor desenfreado das suas trafulhices, Sócrates operou autênticos milagres, tendo no final desaparecido, deixando para trás uma imagem difusa e espectral, envolta em névoa.

 

Já temos, na nossa ilustre praça, muitos hipócritas, canalhas, salafrários, vendilhões do templo, mentirosos e terroristas de pacotilha. Não precisamos de bispos que também o sejam.