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Difamação

Miguel Sousa Tavares (um dos mais proeminentes intérpretes do revisionismo socrático) foi, segundo o DN de hoje, ilibado da acusação de difamar Armando Vara. Tratando-se de Armando Vara, eu interrogo-me: o que seria preciso dizer para que se considerasse difamação?

Helena que não de Tróia

O Público/José António Cerejo chamam-lhe “uma história a precisar de ser esclarecida”. Nada contra. Não só JAC tem a suportá-lo um historial de escrutínio aos desmandos do poder socrático, o que lhe confere pelo menos uma sugestão de independência; como Miguel Relvas nunca foi santo de minha devoção.

 

Acontece, contudo, que há aqui uma segunda história que importa esclarecer: a razão para Helena Roseta ter deixado este assunto a macerar durante perto de dez anos. Quando alguém revela factos que são, no mínimo, desconfortáveis para o[s] sujeito[s] desses factos, é típico questionar o timing da revelação. Eu, pelo contrário, com frequência acho mais interessante o timing da espera.

 

Helena Roseta, que se gosta de mostrar paladina do contrapoder e da moral, amiga de Alegre e do Zé-que-fazia-falta, soube há dez anos em primeira-mão que uma pessoa A, titular de um cargo político, usaria esse posto para promover negócios com o(s) seu(s) amigo(s). A inabalável Helena Roseta esbracejou, perdigotou, expôs a utilização abusiva de um cargo político? Não: amochou, relativizou, “não valorizou o caso”.

 

Isto dá a entender que o conceito de “ética”, para a impoluta Helena Roseta, evoluiu bastante ao longo do tempo: o que era “relativo” em 2002, é ameaçador em 2012. Mas também pode dar a entender algo muito diferente e mais sombrio: que Helena Roseta sabia “o tipo de pessoa que era Miguel Relvas” e, em vez de o desmascarar na hora, preferiu deixá-lo continuar no espaço público durante 10(!) anos até que a informação lhe causasse o máximo de danos políticos.

 

Ora importa esclarecer qual destas é a segunda parte da história. Porque se é a primeira hipótese, então isso diz bastante sobre os princípios de Helena Roseta; se é a segunda hipótese, diz ainda mais sobre o cinismo de Helena Roseta.

Os novos cangaceiros?

Trabalhar no Fisco passou a ser considerado um trabalho de alto risco. Por isso, o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos está a organizar cursos de defesa pessoal e manuseamento de armas de fogo. Aparentemente, há mesmo funcionários que pretendem andar armados.

 

Funcionários do Fisco com armas. Como se fosse preciso dar mais argumentos ao contribuinte que se está a queixar (até agora metaforicamente) de “assalto à mão armada”…

Citação

Como avalia os governos de Sócrates?

A experiência destes governos representa um fracasso com custos relevantes para o país, ainda que motivado por algumas ideias estimáveis. A principal falha foi, sem dúvida, a política eleitoralista seguida em 2009. Em vez de iniciar, a tempo e horas, o ajustamento, o governo centrou-se em aumentos de salários e baixas de impostos, apenas porque havia eleições. Em 2010 o governo não percebeu a dimensão da perda de credibilidade daí resultante e demorou cerca de um ano – de negação da realidade em negação da realidade – a reconhecer a necessidade e a pedir a ajuda externa, em Abril de 2011.

 (entrevista de Augusto Mateus ao jornal I, publicada hoje)

O bardo

Segundo o Expresso, o bardo Manuel Alegre terá dito em Pádua que “nos tempos que correm, cada poema, independentemente do seu conteúdo, é um a[c]to de resistência.”

 

Eu ainda vou mais longe. Sempre que leio um poema de Manuel Alegre, parece-me um acto de resistência… ao próprio conceito de poesia.