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Organizadores de eventos

Num momento de azar, passei pela SIC-Notícias quando o jornalista/propagandista de serviço entoava loas à manifestação dos professores.

 

É sempre interessante comparar aquilo que se vê presencialmente com aquilo que é anunciado nas televisões, algo que pude fazer ontem.

 

O jornalista exultava com os muitos milhares de pessoas que se manifestavam; não o ouvi comentar que muitos daqueles manifestantes eram menores, certamente trazidos por professores e organizadores para compor a fotografia, e cujo móbil não seria o “ataque à escola pública” – mas ir lambiscando o gelado.

 

O serviço noticioso(?) também mostrava uma professora que teria vindo de bicicleta (não me recordo de onde) para se manifestar. Aqui estava, parecia dizer a SIC-N, a prova do descontentamento de uma classe. As câmaras televisivas conseguiram ver uma professora de bicicleta; o que as câmaras não conseguiram ver, e eu vi, foi o cortejo de oito autocarros vindos de Viseu e da Guarda – 8! -, três deles “veículos longos”, que desceram a Avenida a alta velocidade e com escolta policial. Estes oito autocarros vinham de Viseu e da Guarda. Como estes oito, muitos mais vieram de outros locais, pois os Sindicatos, como bem sabemos, não brincam em serviço. Mas as câmaras conseguiram falhar algo tão grande como uma comitiva de autocarros – quando conseguiram encontrar uma professora de bicicleta.

 

Os sindicatos têm uma evidente capacidade organizativa. Não consigo deixar de pensar que, se colocassem essas capacidades ao serviço da verdadeira reorganização da escola pública, seriam os nórdicos a vir cá estudar-nos.

O chiqueiro

 

“Eu só estava ali a mostrar um cartaz, vem um polícia à paisana e agrediu-me”, diz o manifestante. Como se pode ver no vídeo acima, é verdade: o segurança deu uma violenta cabeçada no punho deste humilde.

 

O sindicalismo cegado pela ideologia é assim: irresponsável e mentiroso com quantos (poucos) dentes tem na boca, mesmo quando é filmado por aqueles a quem mente. E os “populares” que, em vez de lamentarem os excessos de um camarada, chamam fascistas e pides aos agentes da polícia que estão fazendo o seu trabalho, não são menos vermes.

 

Para terminar, um reparo à titulação dos jornais: não foi um manifestante que foi detido em Leiria – foi um agressor de um membro da comitiva ministerial. A sequência causa-efeito aqui não foi manifestação-detenção: foi agressão-detenção.

Obviamente…

Por um lado, é de saudar: talvez pela primeira vez na História, uma greve do Metropolitano de Lisboa foi desconvocada. Por outro lado, a idade fez-me cínico e receio que isto não passe de uma tentativa de lavar a cara por parte do sindicato: quando questionada sobre o assunto, uma sindicalista afirmou que

 

“Discutimos algumas das questões que tínhamos em cima da mesa e, obviamente, não chegámos a acordo (…)”

 

Quando eu ouço alguém de um sindicato dizer que “obviamente” não se chegou a um acordo, questiono-me sempre se esse “obviamente” não estaria já previamente decidido…

Uma pequena lufada de ar fresco

Aristides Teixeira já foi presidente da Associação Democrática de Utentes da Ponte 25 de Abril. Aristides Teixeira foi também, há imenso tempo, candidato a deputado pela CDU e, há menos tempo, duas vezes proto-candidato à Presidência da República. Eu comecei a simpatizar com Aristides Teixeira quando, nos idos de 80, participou numa série de humor de Nicolau Breyner e prestou-se a uma rábula recorrente que, se fosse praticada hoje, levaria ao cúmulo da ira todo um conjunto de grupúsculos censores do politicamente correcto.

 

Aristides é, como é fácil ver, alguém claramente de Esquerda, pertencendo agora ao Movimento de Utentes do Metro de Lisboa. E o que veio dizer? Entre outras coisas, que “as pessoas estão a ser prejudicadas no seu dia-a-dia e que as paralisações do metro estão a fazer “mossa” apenas a quem precisa deste meio de transporte e não aos administradores da empresa”.

 

Não tenhamos ilusões: o Movimento está “solidário com os trabalhadores do Metro” – solidário, acrescento eu, com os pobres maquinistas que, no ano passado, recebiam uns míseros 2580 euros mensais acrescidos de complementos vários. Mas o simples facto de alguém ligado à Esquerda vir dizer que:

 

“Estamos solidários com os trabalhadores do Metro, mas também temos razão em querermos ser transportados por um serviço que pagamos atempadamente”

 

e por isso

 

“apela a que estes funcionários arranjem formas de protesto que não prejudiquem apenas quem necessita diariamente de se deslocar de Metro na cidade de Lisboa”

 

já é uma melhoria em relação ao habitual.

 

Agora: que tal este Movimento de Utentes do Metro de Lisboa alargar a sua actividade aos comboios urbanos e à travessia do Tejo?

Ainda os médicos

Ah, mas isto é genial. Isto é o retrato do sindicalismo com freio nos dentes. O título expõe na perfeição todo o conceito de negociação, e do papel da greve, que vai atravessando as mentes sindicalistas:

 

Médicos consideram que se negoceia melhor depois da greve.

 

Como se não fosse suficiente, os senhores do sindicato lançam um apelo:

 

A paralisação também é em defesa dos doentes, diz Roque da Cunha, que não quer ver os doentes usados contra os médicos nos dias da greve. Por isso, apela a que os portugueses, nesses dias, não recorram aos serviços de saúde, “para não serem aproveitadas as suas doenças contra os médicos”. 

 

Roque da Cunha, secretário geral do SIM (Sindicato Independente dos Médicos), não quer ver os doentes usados contra os médicos nos dias da greve. Isso não irá acontecer – porque os doentes já estarão sendo usados contra o Ministério nos dias da greve. Não sendo os doentes partículas subatómicas, não podem estar em dois locais ao mesmo tempo.

 

Acho magnífico que o SG do SIM também apele aos doentes para, no dia da greve… não estarem doentes. Infelizmente, e eu pensava que qualquer médico teria disto conhecimento, é um pouco complicado planear antecipadamente – um boicote à doença.

Uma das profissões mais velhas do mundo

carpideira, subst.fem. – mulher mercenária que pranteava os mortos durante os funerais.

 

Atentemos um pouco na famosa “manifestação popular” da Covilhã em que a presa foi Álvaro Santos Pereira. As televisões, os jornais, os websites de notícias, os blogues, todos publicaram e republicaram gulosamente fotografias e vídeos do personagem que se estirou sobre o capô da viatura oficial do ministro. Alguns mencionaram de passagem que a figura tem por nome Luis Garra e por ocupação sindicalista (logo aqui, campainhas deviam soar). Nenhum, que eu tenha dado por isso, reportou o interessante detalhe de Luis Garra ser funcionário sindical pelo menos desde 1978 (tinha na altura 21 anos!), de ter aderido em 1974 ao Movimento da Juventude Trabalhadora (com 17 anos!), de ser membro do CC do PCP e de não ter tido, em quase toda a sua vida adulta, outro tipo de actividade que não política, sindicalista, manifestante e do contra.

 

Ao longo de uma carreira com quase quatro décadas, é de crer que Luis Garra já se tenha lançado sobre os capôs das viaturas de Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Mário Soares, Cavaco Silva, Guterres e mais não sei quantos outros Primeiro-Ministros, Presidentes da República, presidentes de Junta, banqueiros, treinadores de futebol e vendedores de gelados. Luis Garra, o tal da manifestação popular, é um sindicalista de carreira e de teoria feita que até já se internacionalizou. Como este Luis Garra, há muitos por aí. Há imensos Luises Garra pelo país fora, desejosos de servir como rastilho, ansiosos pela tragédia porque se alimentam, vicejam nela como vampiros.

 

Estes manifestantes de carreira são, no fundo, a versão moderna das carpideiras.

Excursões Costa

Agora, parece que o passatempo nacional é fazer esperas e vaias aos membros do Governo e ao Presidente da República. E a verdade é que isto, por muito que não gostemos e preferíssemos uma honestidade mínima em todas as partes, faz parte do jogo político e quem pretende jogá-lo, tem que estar pronto para este lado sujo.

 

Tal como há dois partidos que se alternam no exercício do poder, há outros partidos ou intervenientes no espaço público (como os sindicatos) que fazem questão de não fazer nunca parte da solução e oporem-se sistematicamente ao Governo da altura, quer este institua o branco ou o azul. Infelizmente, esta postura leva a que em Portugal os sindicatos, mais do que não serem parte da solução, mais até do que serem parte do problema – torna-os amiúde UM problema.

 

Mas… e se esta gente, em vez de ir chamar ladrão aos ministros ou a Cavaco Silva, se metesse num autocarro e fizesse uma excursão até Paris, para acampar à porta de quem, de facto, passou seis anos a meter o país neste buraco?

Diário de um louco

Segundo o jornal Sol, o cretácico Arménio Carlos garantiu: “Tivemos uma grande greve geral”. Disse também que além de ter existido uma “adesão significativa de trabalhadores à greve geral”, “a pressão da greve geral instalou uma dinâmica que foi importante. Houve empresas que tinham mostrado indisponibilidade até para negociar cadernos reivindicativos e que fizeram aumentos e deram prémios salariais consideráveis”. Para finalizar, adiantou que a greve levou ainda à sindicalização de muitos trabalhadores. Leia-se o resto da notícia: é um portento.

 

Não sei o que me assusta mais: se ele ser louco o suficiente para acreditar nisto; se ele ser louco o suficiente para achar que há gente que acredite nisto; ou se a possibilidade de haver gente louca o suficiente para DE FACTO acreditar neste sindicalismo.