O caduco e, pelos vistos, inimputável Soares afirma que qualquer pessoa lúcida reconhece que José Sócrates deve ser posto em liberdade quanto antes e com os devidos pedidos de desculpa. Eu acho que são devidos pedidos de desculpa, sim – mas é por não ter sido seriamente investigado antes. E, já agora, a mesma necessidade de investigação aplica-se a muitas pessoas que andam por aí a exigir a sua libertação.
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Um homem à parte
As pessoas podem começar a pensar que eu tenho um qualquer problema particular com o PS. Posso dizer, com absoluta sinceridade, que tal é muito distante da verdade: eu começo é a ter um problema com a generalidade do PS.
Vera Jardim, um dos eternos actores do nosso regime, veio dizer que o ex-Querido-Líder tem o direito de violar a lei para “se defender”. Isto é o assumir sem rodeios por parte do Partido Socialista que a legalidade é um conceito apenas aplicável aos outros, enquanto ele próprio, mercê do seu nascimento ou predestinação, está isentado dessas chatices.
Mas a questão é, também, outra. Para se defender das investigações no caso Freeport, Sócrates já fizera avançar Lopes da Mota com ameaças de represálias caso os inquéritos não fossem encerrados com rapidez – e, imagino eu, “resultados satisfatórios”. [Lopes da Mota, convém lembrar, não é virgem na manipulação de casos judiciais envolvendo figuras gradas do PS.] Mais tarde, para se defender do escrutínio de Manuela Moura Guedes, Sócrates e sus muchachos conspiraram para a compra da TVI por um grupo que lhe desse garantias de respeitinho.
Ou seja: de há muito que José Sócrates recorre à ilegalidade para se defender . Aliás, cada vez mais parece evidente que, para Sócrates, a ilegalidade é um estilo de vida.
Conversas em família

José Sócrates, que chegou ao (e saiu do) governo cheio de tiques de superioridade de quem achava ter as soluções perfeitas, disse ontem que Vitor Gaspar chegou ao governo “cheio de tiques de superioridade de quem acha que tem as soluções perfeitas”. Como eu não vejo o seu exercício semanal de impudência, não consigo perceber se aquilo é uma censura ou um elogio…
José Sócrates disse também, e consta que sem ter tido pelo menos a delicadeza de corar, que Paulo Portas “perdeu aquilo que é mais precioso num político: a fidelidade às palavras dadas”. José Sócrates dizer isto e o/a jornalista que está à sua frente não rebolar de riso é (mais) um sinal do respeitinho que o nosso pobre jornalismo mantém por esta figura.
Da micro-finança para a macro-finança
Faz agora uma semana, Almerindo Marques afirmou que, enquanto foi Presidente da Estradas de Portugal, era pressionado por José Sócrates para “ser contratualizada mais e mais obra”. As instruções não lhe eram dadas directamente, mas por interposta pessoa: o então secretário de Estado das Obras Públicas, o omnipresente Paulo Campos.
Hoje, o jornal I expõe como a venda de imóveis pelo regime socrático agravou o défice de 2012 em quase 0,5%:
As vendas em massa de imóveis do Estado a uma empresa pública, realizadas nos governos liderados por José Sócrates, foram um dos factores de agravamento do défice público de 2012.
As transacções incidiram sobre centenas de imóveis, muitos associados à prestação de serviços públicos, e geraram entre 2005 e 2011 receitas extraordinárias de centenas de milhões. O resultado terá ajudado a aliviar défices públicos nesses anos, mas acabou por ter o efeito contrário no ano passado.
Já num passado mais distante, José Gomes Ferreira descreveu parte dos crimes desta quadrilha:
Como é bom de ver, isto é um traço comportamental do homo socraticus: criar uma fachada de fantasia à conta do que não se tem e empurrando a factura para quem virá depois. Paulo Campos, funcionário do partido que saltita há décadas pelas administrações de empresas públicas e com passagens pelo Governo do país, afirmou ser apoiado financeiramente pelos pais. José Sócrates, funcionário do partido desde sempre, deputado desde 1987, com múltiplas passagens por governos e que ganhou, enquanto Primeiro-Ministro, mais de 600.000 euros (repito: 120 mil contos!), afirmou estar a viver em Paris graças a um empréstimo contraído junto da CGD (espero que esse empréstimo não vá pelo menos caminho dos muitos milhões emprestados ao seu comparsa Joe Berardo).
E assim se enterrou um país.
