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Sobre Sócrates no Expresso [4]

“Nem sabia que existiam vidas assim, vidas tão boas. Nunca tinha tido uma vida dessas.”


Este notável cavalheiro, depois de ter deixado um país na penúria e ter o seu nome associado a múltiplos casos cinzentos, teria feito bem melhor em seguir a sua vidinha de forma razoavelmente discreta. Mas não! Sócrates, vaidoso patológico e como qualquer provinciano que se apanha com dinheiro e/ou poder, exibe-se numa ostentação decadente. Sócrates acha a sua vida em Paris “tão boa” e “não sabia que existiam vidas assim”, ele que fazia safaris no Quénia enquanto o país ardia e férias em Menorca, caía nas neves da Suíça, descansava uns dias no Pine Cliffs Resort e, last but not least, comprava os seus fatinhos na Bijan.

Sobre Sócrates no Expresso [3]

“Ele (Lula da Silva) foi a Sciences Po receber o título honoris causa quando comecei a estudar lá, por coincidência. Chegou a Lisboa e quis falar comigo e ninguém lhe dava o meu número de telefone, já eu estava em Paris. Ele fez uma fita, quero falar com o Sócrates! Não tinha o telefone de Paris. Quando chegámos à fala, disse-lhe que íamos estar juntos, depois jantámos na Embaixada do Brasil, antes da sessão. Um jantar divertidíssimo, até às duas da manhã. No dia seguinte, estavam lá os catedráticos todos, no doutoramento, e o Lula disse-lhes que eles tinham ali aquele gajo como étudiant – eu fui e ainda sou estudante de Sciences Po – e pediu-me para lhes mostrar o meu cartão de aluno. Mostra, Sócrates! Mostra!”


Mostra o cartão, Sócrates! Mostra!


Tudo isto é pobrezinho, foleiro, labrego, dedinho espetado a segurar a bica. Nada mais é do que o deslumbramento de um bando de parolos quando vê os neons da cidade. É o pato-bravo que, de fato de treino, atravessa a rua para beber a bica – mas leva no dedo, à laia de aliança, o porta-chaves do Mercedes. É a dona Vitalina que exibe às amigas da aldeia o filho, caloiro da faculdade, vestido com a batina e exulta que o menino “está a estudar para doutor”.

A tese

Então, vejamos se percebi.

 

Há tempos, Maria Henrique Espada, jornalista da Sábado, abordou José Sócrates para confirmar que a tese que este estaria(?) a preparar na Sciences Po era sobre tortura. Sócrates desmentiu categoricamente e até adiantou:

 

“Não. Peço-lhe aliás que não escreva isso porque estará a enganar os leitores da sua revista e estará a dar-lhes uma informação errada.” [Pergunto-me se serei o único com vontade de rir por ver Sócrates preocupado com a hipótese de “enganar” outras pessoas e “dar-lhes informação errada”.]

 

A jornalista, perante tal desmentido, ficou-se e não publicou nada.

 

Fast-forward de algumas semanas.

 

O Expresso publica uma notícia, com declarações do próprio José Sócrates, sobre a tese deste que tem como tema – A Tortura (e os regimes democráticos). Aliás, retiro o que disse: o Expresso não publicou uma notícia – o Expresso publicou uma celebração, como se daqui resultasse a reformulação dos equilíbrios geo-estratégicos, a solução para a Crise Mundial, e Sócrates se tivesse tornado automaticamente candidato ao Nobel da Paz E da Literatura.

 

Maria Henrique Espada e a revista Sábado, ao terem conhecimento da notícia do Expresso, decidiram confrontar Sócrates com o sucedido. Este, com a fleuma que lhe é habitual, respondeu:

 

“Não lhe admito isso, nem que me peça explicações.”

 

“(…) que interessante, um jornalista a pedir-me explicações, costuma ser ao contrário.” [Daqui ficamos a saber que, para Sócrates, e como Judite de Sousa bem o sabe, o normal é ser ele a mandar no jornalista.]

 

“Você disse que a minha tese era sobre tortura, e não é, a minha tese não é sobre tortura. É sobre tortura em determinadas circunstâncias, embora, é claro, eu não tenha na altura acrescentado esta informação.” [Daqui se vê que, quando tal lhe convém, Sócrates é muito cioso da verdade absoluta dos detalhes.]

 

“Isto é um assunto privado e não quis permitir que amigos meus, ainda que bem intencionados, usem informação que só a mim diz respeito para efeitos de quando deve vir a público. Eu é que decido a quem digo e como o digo.” [Aqui se vê que, para Sócrates, o homem que os jornalistas/hagiógrafos afirmam defender ferozmente a sua vida privada, esta é um valor absoluto e irrevogável – para ser exposto quando, onde e como for mais vantajoso.]

 

E assim percebemos, pela história da sua polémica tese na polémica Sciences Po, noticiada no polémico Expresso do polémico Balsemão e editoriado pelo polémico Ricardo Costa, e que será publicada com o apoio da polémica Fundação do polémico Soares, sendo prefaciada pelo polémico Lula da Silva – assim percebemos como o polémico José Sócrates, numa inversão de 180º, tomou o gosto à Verdade Absoluta e à Impecável Correcção Factual.

 

Ou será…?

 

É que basta ler esta investigação de António Balbino Caldeira sobre a notícia do Expresso, onde um esfuziante Ricardo Costa anuncia que:

 

“(…) Sócrates escolheu este tema para a sua mémoire (tese de mestrado), que defendeu em Julho na Sorbonne, em Paris (…)”

 

para se perceber que uma mémoire não é bem, bem, bem uma tese, tal como a Sciences Po não é bem, bem, bem a Sorbonne (esta, aliás, nem tinha nada a ver com a tese de Sócrates), tal como… enfim, em se tratando de Sócrates, receio virmos a descobrir que a sua Paris não era bem, bem, bem Paris – mas sim Casal do Marco.

 

Sócrates, o eterno empolador da sua própria realidade – ajudado por Ricardo Costa, aqui apenas ligeiramente melhor do que o seu colega Nicolau Santos.

 

Primeira página

 

Admito nunca ter dedicado muito estudo à paginação de jornais. Não consigo, no entanto, libertar-me da sensação de que a primeira página do Expresso de hoje foi pensada ao detalhe. Senão, vejamos: “Governo muda discurso” é a manchete; “Empresas de transporte cortam carreiras e perdem passageiros”; “Austeridade destruiu…”. No canto inferior direito, em letra vermelha para chamar a atenção: “Assunção Cristas ignora regras e nomeia ex-colegas” – e, no lado oposto, no canto menos lido, em fonte minúscula e com um pequeno cabeçalho azul-pálido: “Défice controlado”.

 

Isto é uma ciência – principalmente num jornal propriedade do esperto Balsemão e dirigido pelo cínico Costa e pelo “ingénuo do laço” Nicolau Santos.