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Mais 0.36% de juristas

O blogue Má Despesa Pública (que presta bom serviço público) chamou a atenção para a Câmara Municipal de Lisboa ter contratado um jurista no final do ano passado – e de este ir receber 74.846 euros por 22 meses de trabalho (cerca de 3400 euros mensais). Isto, só por si, talvez não fosse razão para polémica – não se desse o caso de a CML já ter na sua lista de pessoal 278 outros juristas.

 

278 juristas! Como é que uma Câmara Municipal quase paralisada (e, quando não está, mais valia que estivesse) consegue gerar trabalho suficiente para 278 juristas?

Ainda sobre a nova rotunda

António Costa, talvez para dar um ossinho ao Zé-que-fazia-falta-Sá-Fernandes, quer levar mais bicicletas para a Avenida da Liberdade. É curiosa esta ideia que ele tem do utente de Lisboa: António Costa vê em cada cidadão – um Joaquim Agostinho.

Eu ontem fiz uma referência (com algum sarcasmo) às simulações por computador que os engenheiros responsáveis teriam feito durante o projecto. Contudo, quanto mais leio sobre o que aconteceu ontem e as reacções da autarquia, mais me convenço que o projecto foi, isso sim, desenvolvido – nas costas de um guardanapo.

A dinâmica do caos


Rotunda na China

Carlos Barbosa, presidente do ACP, chama-lhe “um orgasmo teórico de professores”. Mas quando li que as alterações na rotunda do Marquês foram projectadas por dois engenheiros do IST, José Reis e Nunes da Silva, fiquei mais descansado. Afinal, o Técnico já nos deu antes autênticos fazedores de milagres: quem não se recorda do santo António Guterres?

 

Isto pode bem vir a ser divertido de se ver. Os sôtores podem ter feito múltiplos modelos computacionais; podem até ter passado horas a olhar para pontinhos em movimento no ecrã. Mas o que a realidade nos vai mostrar, estou certo, é a criatividade do condutor tuga: por cada evento aleatório que os engenheiros decidiram incluir nas suas simulações, o taxista de Lisboa é capaz de inventar dez novas ocorrências de caos.

A ciência segundo António Costa

Quando se pretende aferir a robustez e eficácia de um sistema, fazem-se testes em sobrecarga, isto é, procura-se ver como se comporta quando sujeito a condições extremas. Mas não para António Costa! Nããããão! Para este brilhante pensador que pretende revolucionar os métodos experimentais, começam-se os testes à nova rotunda do Marquês – e pede-se aos condutores que não a usem!

 

Os deuses que mantenham estes socialistas bem longe dos laboratórios!

Da bandalheira de Costa

Ao longo da História, os detentores do poder sempre ambicionaram deixar a sua marca para a posteridade. Olhemos para os sucessivos alcaides de Lisboa e o fenómeno mantém-se. Santana Lopes deixou um túnel no Marquês. João filho-do-pai Soares, quiçá inspirado no brilho que outrora teve a pirâmide de Kheops, quis deixar uma Lisboa coberta de ladrilhos e um elevador a angular as colinas da cidade. Sampaio acabou por nos deixar… João Soares. 

 

Como em séculos antigos, umas vezes a obra é útil (não conheço quem use o túnel do Marquês sem gabar a sua conveniência), outras vezes reflecte apenas o ridículo do seu pensador (os delírios de João Soares). António Costa, desejoso de se ver numa cadeira, só ainda não sabendo se na de Cavaco Silva ou Passos Coelho, também se vai esforçando por deixar o seu aleijãozinho na cidade: foram as folclóricas ciclovias, é agora a retorcida ideia da rotunda do Marquês desdobrada.

 

Lisboa, pelos vistos, está perfeita. Não há lixo nas ruas; não há cheiro a urina nas portadas dos prédios; não há edifícios a esboroarem; não há passeios esburacados; não há estaleiros em constante migração e a deixarem uma película de areia no pavimento. Lisboa, na ideia de António Costa, está tão perfeita que ele se pode dar ao luxo de fazer experiências num dos seus centros de circulação (pois é assim que a directora municipal do Departamento de Projectos e Obras, Helena Bicho, se lhe refere – “um período experimental”). Experiências que já custaram mais de meio milhao de euros, fora o estorvo causado em quem passa por aquela zona. Experiências planeadas pelos exércitos de “técnicos camarários”, que descuram detalhes que um reformado em passagem detecta:

 

“Senhor presidente, ninguém me encomendou este sermão, mas deixe-me que lhe diga: além da magnífica obra, a Câmara conseguiu criar o futuro ‘Rio do Marquês'”.


Tantos senhores engenheiros e senhores directores, tantos cargos, tantos salamaleques, tantos diplomas pendurados nas paredes, e é um reformado dos andaimes quem chama a atenção para o facto de a ninguém ter ocorrido construir estruturas para escoar as águas. E se de facto, como é dito, os escoadores não foram esquecidos mas sim protelados para depois da “fase de experiência”, consegue ser igualmente mau: pois como querem os senhores camarários analisar seriamente os resultados da obra se, com a primeira chuvada, as inundações retiram qualquer objectividade aos mesmos?