Confesso não perceber a relação de Belmiro de Azevedo, e porque não dizer da própria Sonae, com o jornal Público.
Pelo que vou sabendo, o jornal não se sustenta por si. No entanto, o grupo continua a suportar os défices do Público. Sendo certo que a Internet e os serviços “gratuitos” vêm destruindo o espaço de manobra dos jornais, impedindo que em mercados pequenos como o nosso seja rentável fazer jornalismo de grande qualidade, seria de esperar que Belmiro de Azevedo apenas acedesse a enterrar dinheiro no Público se este mantivesse uma grande qualidade editorial.
Não é isto o que acontece. Por razões que a razão desconhece, a Sonae continua a sustentar uma sombra do jornal de referência que o Público já foi. Palco de intestinas lutas políticas, como se viu no pretérito episódio que antecedeu a saída de José Manuel Fernandes, o Público mantém desde há tempos uma opção por notícias e cabeçalhos claramente caça-cliques, na melhor das hipóteses, ou de demagogia política, na pior.
Vem-me isto a propósito desta notícia: Câmara do Porto gasta 106 mil euros em três anos na recolha e análise de notícias. Todo o texto tem uma nítida tendência: “custar aos cofres da autarquia mais de 100 mil euros”; “A autarquia portuense é aquela que paga a factura mais elevada num grupo de municípios que facultaram esses dados ao PÚBLICO” (gostaria de saber se a de Lisboa, por exemplo, o fez).
Ora quando se fazem as contas, conclui-se que 106.000€ em três anos dá 3000€ mensais. É muito? É pouco? Comparando com os valores que o jornalista apresenta para outras câmaras de menor dimensão, parece aceitável. E se a Câmara do Porto não tem funcionários disponíveis para executar este trabalho, sairia mais barato contratá-los e pagar as assinaturas online dos jornais? O jornalista não o explicou, não fez as contas, não escrutinou. Limitou-se a lançar palavras com intenção evidente: “custar aos cofres”, “factura mais elevada”.
E eu, aqui, a tentar imaginar quando pagava Sócrates ao “Luis, fica melhor assim ou assim”…