
O Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, não é virgem neste tipo de ideias. Há tempos, sugeriu um imposto sobre a fast-food. Agora, mostrou um biscoito de 50 quilocalorias, muniu-se de uma calculadora, e concluiu que:
Eu proponho o seguinte: quem for a um supermercado e quiser comprar um pacote de Belgas, tem de provar à priori que percorreu um determinado número de quilómetros. [Cada pacote de comida teria esse número na embalagem – um pouco como os avisos nos maços de cigarros.] A Ordem dos Médicos coloca nos percursos à beira-Tejo um conjunto de equipamentos onde o cidadão pode registar as suas caminhadas. Munido do seu relatoriozinho, apresenta a folhinha na caixa do supermercado. A funcionária compara a quilometragem do cliente com a exigida pelas bolachas e, ou coincide e aceita, ou verifica que o cliente está em falta e recusa:
– Não, não, precisava de ter percorrido mais 570 metros para comer estas bolachas. O seu relatório de exercícios só lhe dá direito a três Gressinos.
Como o delírio do bastonário não fosse já evidente, prosseguiu:
E porquê ser-se tão pouco ambicioso? Porque não 500%? Porque não obrigar quem se pretende envenenar com estas águas sujas do imperialismo, óbvio comportamento anti-social, a cumprir serviço comunitário?
“Impostos inteligentes“, dizem eles. Gente parva, digo eu.
A tese, partilhada por alguns fanáticos de pupilas dilatadas, de que o Estado deve proteger-nos de nós próprios regulando a quantidade de calorias que nos é permitido enfiar na goela, devia preocupar as pessoas mentalmente sãs. Seria um precedente grave, este, o de permitir que se limite abusivamente a liberdade individual de um indivíduo com o pretexto de isso “reduzir os futuros encargos do SNS suportado por todos nós”. Porque, a partir daqui, seria impossível negar a extrapolação para outras áreas. E a literatura está cheia destes admiráveis mundos novos:
– Grupo dos trinta aos quarenta! – latiu uma estridente voz feminina. – Grupo dos trinta aos quarenta! Para os vossos lugares, por favor. Trinta aos quarenta!
Winston pôs-se em sentido diante do telecrã, onde já aparecia a imagem de uma mulher ainda jovem, magra mas musculada, com uniforme e sapatos de ginástica.
– Flectir e esticar os braços! – vociferou. – Acompanhem o meu ritmo. Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vá lá, camaradas, um pouco mais de energia! Um, dois, três quatro! Um, dois, três, quatro!…
1984, George Orwell