C3H5(NO2)3

 

Isabel do Carmo é de Esquerda, claramente de Esquerda, ultramente de Esquerda.

 

Isabel do Carmo é uma médica ultra-esquerdista, e como tal uma defensora acérrima do serviço nacional de saúde – que nunca se impediu de ter actividade simultânea na clínica privada.

 

Isabel do Carmo é uma mulher de convicções fortes – que, quando questionada se voltaria à luta armada, responde, com risos, que “agora não lhe apetecia ser presa”. A força das convicções, como é bom de ver, rapidamente esmorece quando coloca em risco o conforto do sofá e da mantinha sobre os joelhos.

 

Isabel do Carmo foi condecorada pelo então Presidente Jorge Sampaio – estou certo que não pela sua participação nos ataques bombistas perpetrados pelas Brigadas Revolucionárias.

 

Isabel do Carmo diz que hoje a estrutura do capitalismo é demasiado ampla para se pôr bombas – e quase ouço, nestas palavras escritas, o tom de desalento da sua voz.

 

Mas Isabel do Carmo, plena de moral, nega-se bombista. Confirma que transportou o material explosivo para as bombas, esteve integrada nas acções, fez observações dos locais. “Participei completamente na organização, mas nunca instalei”, diz orgulhosa – e isso, para a coerente Isabel do Carmo, é suficiente para a desqualificar como bombista. Isto é a mesma linha de raciocínio daquela gente que fuma charros mas, como não prende o fumo, afirma que nunca se drogou. Ou, num registo mais sério, seria uma linha de raciocínio que ilibaria Bin Laden do epíteto de terrorista – pois não foi a sua mão que dirigiu os aviões contra as torres.

 

A neo-burguesa Isabel do Carmo pode já não ser a bombista que foi – mas é, seguramente, uma hipócrita cara-de-pau.

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