Está a estrear a primeira parte da trilogia “As Mil e Uma Noites” de Miguel Gomes, um filme político que o realizador assume como não-político – apesar de ser um retrato metaforizado dos “anos da troika” e os dois últimos capítulos estrearem nas semanas anteriores às legislativas. (Gostaria de saber se Miguel Gomes também estaria disponível para filmar retratos metaforizados dos anos do protofascismo socrático.) Gosto sempre de ouvir os realizadores preverem anos de asfixia e paralisia com a subida dos perigosos neoliberais ao poder e com a suposta despromoção da Cultura a Secretaria de Estado. E no entanto…
… e no entanto, recordo-me de pouquíssimas épocas no passado em que se estreassem tantos filmes portugueses e de tantos géneros distintos. Temos tido documentários, comédias, tragédias, farsas, remakes. A paralisia deu em hiperactividade. A asfixia dá-nos filmes de seis horas que são separados em três capítulos.
A verdade é esta: com tecnologia barata e ao alcance de todos numa qualquer Fnac, nunca como agora foi tão barato fazer um filme com qualidade técnica (já o talento, infelizmente, é outra conversa). O problema de grande parte da nossa massa “artística” é não conseguir imaginar a sua actividade separada da subsidiodependência, como se ter o selo de um “Ministério da Cultura” no cartaz do filme desse uma qualquer credibilidade acrescida.