Vileza

Os vice-presidentes da bancada parlamentar socialista são tantos que, na prática, é um título que nada vale. Como diria um filósofo, todos são vice-presidentes – e por isso ninguém o é.

 

O António, lá atrás, comenta as declarações de Pedro Nuno Santos, vice-presidente da bancada socialista e líder do PS-Aveiro e pretérito presidente da JS. Eu acrescento o pormenor de PNS, certamente para evitar interpretações abusivas das suas palavras, vir esclarecer que:

 

“Eu não disse que o Governo português não deve pagar a dívida e honrar os seus compromissos. Aquilo que eu digo na minha intervenção é que o Governo português tem obrigação de defender os interesses do seu povo e que os interesses do povo que o elegeu estão em primeiro lugar. Numa situação de grande dificuldade, e se se agravar, o Governo deve usar todas as armas negociais ao seu dispor para impor condições mais favoráveis ao pagamento da própria dívida”, explica.

 

Mas e que armas são essas? “Só temos uma arma: a própria dívida”, responde.

 

A maleabilidade de princípios destes políticos carreiristas enternece-me. Por um lado, “claro que pagamos”; por outro lado, “portem-se bem senão não pagamos”. A ideia de que a arma para negociar a dívida é a própria dívida, mais não é do que colocar em prática a teoria “se devemos bastante dinheiro ao credor, é o credor que está em apuros” (e que eu já invoquei a propósito do devedor-mestre).

 

Carlos Zorrinho, esse, o (único) presidente da bancada socialista, veio fazer aquilo que os jornalistas benevolentes chamam “colocar água na fervura” – e eu chamo “falta de vergonha”. Que “devemos ter em conta o contexto em que as declarações foram feitas”; que “usou uma imagética muito rica e eventualmente excessiva”.

 

Não lhe faz confusão, a este ingénuo Zorrinho, que as declarações tenham sido proferidas por alguém que é, logo por azar, membro da comissão parlamentar de acompanhamento das medidas da troika, e que por isso devia ter a noção do peso que tais inanidades têm na imagem do país. Talvez devamos recordar que Cavaco Silva exigiu a demissão de alguém por causa de uma anedota. Zorrinho, por seu lado, não demite a própria anedota – antes “mantém a confiança política”.

 

E é este o PS que temos e temos tido. Um PS que hoje se está marimbando para os nossos credores, se está marimbando para o banco alemão que emprestou dinheiro a Portugal, se está marimbando que nos chamem irresponsáveis – tal como no passado se esteve “cagando” para o segredo de justiça.

 

Vil.

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